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Questão FC242626

Texto Homem no mar De minha varanda vejo, entre árvores e telhados, o mar. Não há ninguém na praia, que resplende ao sol. O vento é nordeste, e vai tangendo, aqui e ali, no belo az

Concordância (Verbal e Nominal)

CESGRANRIO · 2016

Texto

 

Homem no mar

 

De minha varanda vejo, entre árvores e telhados, o mar. Não há ninguém na praia, que resplende ao sol. O vento é nordeste, e vai tangendo, aqui e ali, no belo azul das águas, pequenas espumas que marcham alguns segundos e morrem, como bichos alegres e humildes; perto da terra a onda é verde.

 

Mas percebo um movimento em um ponto do mar; é um homem nadando. Ele nada a uma certa distância da praia, em braçadas pausadas e fortes; nada a favor das águas e do vento, e as pequenas espumas que nascem e somem parecem ir mais depressa do que ele. Justo: espumas são leves, não são feitas de nada, toda a sua substância é água e vento e luz, e o homem tem sua carne, seus ossos, seu coração, todo o seu corpo a transportar na água.

 

Ele usa os músculos com uma calma energia; avança. Certamente não suspeita de que um desconhecido o vê e o admira porque ele está nadando na praia deserta. Não sei de onde vem essa admiração, mas encontro nesse homem uma nobreza calma, sinto-me solidário com ele, acompanho o seu esforço solitário como se ele estivesse cumprindo uma bela missão. Já nadou em minha presença uns trezentos metros; antes, não sei; duas vezes o perdi de vista, quando ele passou atrás das árvores, mas esperei com toda confiança que reaparecesse sua cabeça, e o movimento alternado de seus braços. Mais uns cinquenta metros, e o perderei de vista, pois um telhado o esconderá. Que ele nade bem esses cinquenta ou sessenta metros, isto me parece importante, é preciso que conserve a mesma batida de sua braçada, que eu o veja desaparecer assim como o vi aparecer, no mesmo rumo, no mesmo ritmo, forte, lento, sereno. Será perfeito; a imagem desse homem me faz bem.

 

É apenas a imagem de um homem, e eu não poderia saber sua idade, nem sua cor, nem os traços de sua cara. Estou solitário com ele, e espero que ele esteja comigo. [...]

 

Agora não sou mais responsável por ele; cumpri o meu dever, e ele cumpriu o seu. Admiro-o. Não consigo saber em que reside, para mim, a grandeza de sua tarefa; ele não estava fazendo nenhum gesto a favor de alguém, nem construindo algo de útil; mas certamente fazia uma coisa bela, e a fazia de um modo puro e viril.

 

Não desço para ir esperá-lo na praia e lhe apertar a mão; mas dou meu silencioso apoio, minha atenção e minha estima a esse desconhecido, a esse nobre animal, a esse homem, a esse correto irmão.

 

Janeiro, 1953 BRAGA, Rubem. A cidade e a Roça. Rio de Janeiro: Editora do Autor, 1964. p. 11.

 

No trecho do Texto “Não há ninguém na praia, que resplende ao sol.” (. 2-3), o verbo haver está adequadamente empregado do ponto de vista da norma-padrão.

 

A frase em que o uso desse verbo apresenta a mesma adequação é:

  1. Haviam bastantes pessoas na praia.
  2. Haveria todos de se lançar ao mar sem medo.
  3. Havia muitos perigos no oceano.
  4. No mar, devem haver mistérios insondáveis.
  5. Há de existir pessoas que se admirem ainda com o mar.
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Gabarito

Certo

Comentário do professor

Na frase "Havia muitos perigos no oceano.", o verbo haver está empregado no sentido de existir, função em que é impessoal. Isso significa que ele permanece na terceira pessoa do singular, independentemente do número do termo que o segue.

Sintaticamente, aqui haver atua como verbo transitivo direto e o sintagma muitos perigos funciona como objeto direto. A forma havia é o pretérito imperfeito desse verbo e conserva sua impessoalidade: não se flexiona para o plural nem concorda com o objeto.

Portanto, a construção está correta: o verbo permanece no singular por ser impessoal e o significado transmite adequadamente a ideia de existência de perigos no passado.

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