Questão FC242641
Meu pai também acreditava que o banho de mar salutar era o tomado antes de o sol nascer. Como explicar o que eu sentia de presente prodigioso em sair de casa de madrugada e pegar o
Vozes (Voz Passiva e Voz Ativa)
CESGRANRIO · 2016
Banhos de mar
Meu pai acreditava que todos os anos se devia fazer uma cura de banhos de mar. E nunca fui tão feliz quanto naquelas temporadas de banhos em Olinda, Recife.
Meu pai também acreditava que o banho de mar salutar era o tomado antes de o sol nascer. Como explicar o que eu sentia de presente prodigioso em sair de casa de madrugada e pegar o bonde vazio que nos levaria para Olinda ainda na escuridão?
De noite eu ia dormir, mas o coração se mantinha acordado, em expectativa. E de puro alvoroço, eu acordava às quatro e pouco da madrugada e despertava o resto da família. Nós nos vestíamos depressa e saíamos em jejum. Porque meu pai acreditava que assim devia ser: em jejum.
Saímos para uma rua toda escura, recebendo a brisa da pré-madrugada. E esperávamos o bonde. Até que lá de longe ouvíamos o seu barulho se aproximando. Eu me sentava bem na ponta do banco, e minha felicidade começava. Atravessar a cidade escura me dava algo que jamais tive de novo. No bonde mesmo o tempo começava a clarear, e uma luz trêmula de sol escondido nos banhava e banhava o mundo.
Eu olhava tudo: as poucas pessoas na rua, a passagem pelo campo com os bichos-de-pé: “Olhe, um porco de verdade!” gritei uma vez, e a frase de deslumbramento ficou sendo uma das brincadeiras da minha família, que de vez em quando me dizia rindo: “Olhe, um porco de verdade.”
Eu não sei da infância alheia. Mas essa viagem diária me tornava uma criança completa de alegria. E me serviu como promessa de felicidade para o futuro. Minha capacidade de ser feliz se revelava. Eu me agarrava, dentro de uma infância muito infeliz, a essa ilha encantada que era a viagem diária.
LISPECTOR, C. A Descoberta do Mundo. São Paulo: Rocco, 1999, p. 175. Adaptado.
Considere-se a seguinte passagem do Texto, que está construída na voz ativa e tem verbo transitivo: “Eu olhava tudo”
O mesmo tipo de construção ocorre em:
- O apelido de Clarice Lispector era Flor-de-Lis.
- Clarice virou cidadã brasileira no ano de 1943.
- Clarice é uma das escritoras mais importantes de nossa literatura.
- O prêmio literário Jabuti foi duas vezes concedido a Clarice Lispector.
- Os editores da época recusaram os textos muito reflexivos de Clarice.
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Comentário do professor
Na oração “Os editores da época recusaram os textos muito reflexivos de Clarice.”, o sujeito “Os editores da época” pratica a ação verbal, portanto a construção está em voz ativa. O núcleo do predicado é o verbo “recusaram”, que expressa a ação realizada pelo sujeito.
O verbo “recusaram” exige um complemento direto, sem preposição, caracterizando-se como verbo transitivo direto. Esse complemento é “os textos muito reflexivos de Clarice”, que funciona como objeto direto, ou seja, recebe diretamente a ação de recusar.
Assim, a estrutura é: sujeito (agente) + verbo transitivo direto (ação) + objeto direto (o elemento afetado pela ação), exatamente o mesmo tipo de construção de “Eu olhava tudo”.
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