Questão FC242695
Texto II Estojo escolar Noite dessas, ciscando num desses canais a cabo, vi uns caras oferecendo maravilhas eletrônicas, bastava telefonar e eu receberia um notebook capaz de me aj
Tipos de Discurso (Direto, Indireto e Indireto Livre)
CESGRANRIO · 2019
Texto II
Estojo escolar
Noite dessas, ciscando num desses canais a cabo, vi uns caras oferecendo maravilhas eletrônicas, bastava telefonar e eu receberia um notebook capaz de me ajudar a fabricar um navio, uma estação espacial.
Minhas necessidades são mais modestas: tenho um PC mastodôntico, contemporâneo das cavernas da informática. E um laptop da mesma época que começa a me deixar na mão. Como pretendo viajar esses dias, habilitei-me a comprar aquilo que os caras anunciavam como o top do top em matéria de computador portátil.
No sábado, recebi um embrulho complicado que necessitava de um manual de instruções para ser aberto. Depois de mil operações sofisticadas para minhas limitações, retirei das entranhas de isopor o novo notebook e coloquei-o em cima da mesa. De repente, como vem acontecendo nos últimos tempos, houve um corte na memória e vi diante de mim o meu primeiro estojo escolar. Tinha 5 anos e ia para o jardim de infância.
Era uma caixinha comprida, envernizada, com uma tampa que corria nas bordas do corpo principal. Dentro, arrumados em divisões, havia lápis coloridos, um apontador, uma lapiseira cromada, uma régua de 20 cm e uma borracha para apagar meus erros.
Da caixinha vinha um cheiro gostoso, cheiro que nunca esqueci e que me tonteava de prazer. Fechei o estojo para proteger aquele cheiro, que ele ficasse ali para sempre, prometi-me economizá-lo. Com avareza, só o cheirava em momentos especiais.
Na tampa que protegia estojo e cheiro havia gravado um ramo de rosas muito vermelhas que se destacavam do fundo creme. Amei aquele ramalhete – olhava aquelas rosas e achava que nada podia ser mais bonito.
O notebook que agora abro é negro, não tem rosas na tampa e, em matéria de cheiro, é abominável. Cheira vilmente a telefone celular, a cabine de avião, ao aparelho de ultrassonografia onde outro dia uma moça veio ver como sou por dentro. Acho que piorei de estojo e de vida.
CONY, C. H. Crônicas para ler na escola. São Paulo: Objetiva,
2009. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao
/fz12039806.htm>. Acesso em: 23 jul. 2019.
O trecho que tem seu sentido inviabilizado pela inversão na ordem de suas orações é
- Quando as velhas lembranças insistem em voltar, precisamos aceitar a realidade.
- À medida que envelhecemos, valorizamos mais as lembranças do passado.
- Para que possamos viver bem o presente, temos de valorizar o passado.
- Como tudo aconteceu muito rapidamente, não notei sua ausência.
- Embora seja sempre uma aliada, a tecnologia afasta as pessoas.
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Gabarito
D
Comentário do professor
A frase Como tudo aconteceu muito rapidamente, não notei sua ausência. contém, logo no início, a conjunção como marcando uma oração subordinada adverbial causal — ou seja, apresenta a causa (“tudo aconteceu muito rapidamente”) e, em seguida, a consequência (“não notei sua ausência”).
Ao inverter as orações, altera-se a relação explícita entre causa e consequência: colocar a oração com como após a principal pode transformar a leitura em maneira ou gerar ambiguidade, perdendo a função causal direta que tinha no início da frase.
Ex.: Não notei sua ausência, como tudo aconteceu muito rapidamente. — aqui o sentido fica menos claro e pode ser reinterpretado, o que invalida a equivalência semântica da inversão.
Por isso, nesta oração a mudança de ordem compromete o valor semântico original.
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