Questão FC242708
Texto Homem no mar De minha varanda vejo, entre árvores e telhados, o mar. Não há ninguém na praia, que resplende ao sol. O vento é nordeste, e vai tangendo, aqui e ali, no belo az
Partícula Se
CESGRANRIO · 2016
Texto
Homem no mar
De minha varanda vejo, entre árvores e telhados, o mar. Não há ninguém na praia, que resplende ao sol. O vento é nordeste, e vai tangendo, aqui e ali, no belo azul das águas, pequenas espumas que marcham alguns segundos e morrem, como bichos alegres e humildes; perto da terra a onda é verde.
Mas percebo um movimento em um ponto do mar; é um homem nadando. Ele nada a uma certa distância da praia, em braçadas pausadas e fortes; nada a favor das águas e do vento, e as pequenas espumas que nascem e somem parecem ir mais depressa do que ele. Justo: espumas são leves, não são feitas de nada, toda a sua substância é água e vento e luz, e o homem tem sua carne, seus ossos, seu coração, todo o seu corpo a transportar na água.
Ele usa os músculos com uma calma energia; avança. Certamente não suspeita de que um desconhecido o vê e o admira porque ele está nadando na praia deserta. Não sei de onde vem essa admiração, mas encontro nesse homem uma nobreza calma, sinto-me solidário com ele, acompanho o seu esforço solitário como se ele estivesse cumprindo uma bela missão. Já nadou em minha presença uns trezentos metros; antes, não sei; duas vezes o perdi de vista, quando ele passou atrás das árvores, mas esperei com toda confiança que reaparecesse sua cabeça, e o movimento alternado de seus braços. Mais uns cinquenta metros, e o perderei de vista, pois um telhado o esconderá. Que ele nade bem esses cinquenta ou sessenta metros, isto me parece importante, é preciso que conserve a mesma batida de sua braçada, que eu o veja desaparecer assim como o vi aparecer, no mesmo rumo, no mesmo ritmo, forte, lento, sereno. Será perfeito; a imagem desse homem me faz bem.
É apenas a imagem de um homem, e eu não poderia saber sua idade, nem sua cor, nem os traços de sua cara. Estou solitário com ele, e espero que ele esteja comigo. [...]
Agora não sou mais responsável por ele; cumpri o meu dever, e ele cumpriu o seu. Admiro-o. Não consigo saber em que reside, para mim, a grandeza de sua tarefa; ele não estava fazendo nenhum gesto a favor de alguém, nem construindo algo de útil; mas certamente fazia uma coisa bela, e a fazia de um modo puro e viril.
Não desço para ir esperá-lo na praia e lhe apertar a mão; mas dou meu silencioso apoio, minha atenção e minha estima a esse desconhecido, a esse nobre animal, a esse homem, a esse correto irmão.
Janeiro, 1953 BRAGA, Rubem. A cidade e a Roça. Rio de Janeiro: Editora do Autor, 1964. p. 11.
No Texto, em “De minha varanda vejo, entre árvores e telhados, o mar.”, caso o verbo em destaque fosse passado para a voz passiva pronominal, o resultado seria:
“De minha varanda vê-se, entre árvores e telhado, o mar.”
Essa transformação conferiria ao relato do narrador um tom de
- mistério
- crítica
- impessoalidade
- dúvida
- resignação
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Gabarito
Certo
Comentário do professor
Na frase original, "De minha varanda vejo, entre árvores e telhados, o mar.", o sujeito é oculto (eu) e vejo é verbo transitivo direto, com o mar como objeto direto.
Ao transformar em voz passiva pronominal: "De minha varanda vê-se, entre árvores e telhados, o mar.", o que era objeto direto passa a funcionar como sujeito paciente (o mar), e o índice se indica a construção passiva.
Nessa forma, a ação de ver não é atribuída a nenhuma pessoa identificada — não aparece o agente. Essa ausência de agente explicito confere ao enunciado um tom de impessoalidade: a observação deixa de ser marcada pelo narrador e ganha caráter genérico.
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