Questão FC242744
A Bela e a Fera Um dos desejos de minha infância foi habitar um palácio como o da Bela e da Fera, evidente que sem a Fera. Tinha tudo do bom e do melhor naquele palácio. As luzes s
Interpretação de Textos (Compreensão)
CESGRANRIO · 2024
A Bela e a Fera
Um dos desejos de minha infância foi habitar um palácio como o da Bela e da Fera, evidente que sem a Fera. Tinha tudo do bom e do melhor naquele palácio. As luzes se acendiam à passagem da moça, a mesa estava posta, havia solidão e silêncio, ninguém enchia o saco dela, a Fera providenciava tudo e ainda fazia o favor de não aparecer, não queria assustá-la.
Eu imaginava um palácio mais modesto, seria a minha própria casa, apenas com um acréscimo: em todas as paredes haveria umas torneirinhas que despejariam guaraná no meu copo. Eu era louco por guaraná, ficava triste quando tomava um, confinado numa garrafa banal, que mal dava para encher um copo.
Queria mais, e muito, daí que sonhava com torneiras em todas as paredes, bastava abri-las e o guaraná geladinho jorraria para matar a minha sede e me tontear de prazer.
A injúria do tempo, somada ao desgaste dos anos, sepultou o delírio, mas fui fiel a ele, não tive outros pela vida afora. Esqueci a Bela e a Fera, o Palácio Encantado, as torneirinhas jorrando guaraná.
Eis que, deixando de ler historinhas infantis, de repente descobri um sucedâneo, bem verdade que às avessas: a internet. Ela não me deslumbra como os contos de Grimm e Perrault; pelo contrário, me aterroriza, mas tem alguma coisa de encantado. Toda vez que abro a caixa postal, é como se abrisse a torneirinha daquele palácio que a memória não esqueceu, mas a vida demoliu.
Não recebo o guaraná mágico para matar minha sede e me tontear de prazer. Recebo mensagens propondo regimes de emagrecimento, oferecem-me terrenos que não quero comprar e viagens que não pretendo fazer. Vez ou outra, pinga uma gota de afeto – mal dá para encher o copo e embromar a sede.
Ouvi dizer que a internet está na Idade da Pedra, mais um pouco ela poderá me dar mais e melhor. Um dia abrirei o computador e terei o guaraná que não mereço.
CONY, Carlos Heitor. Crônicas para ler na escola. Rio
de Janeiro: Objetiva, 2009. p.29-30. Disponível em: https://
www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz1201200606.htm.
Acesso em: 8 fev. 2024.Adaptado.
O tema central desse texto, que faz referência ao conto A Bela e a Fera, pode ser resumido na seguinte frase:
- A maturidade ameniza os devaneios da infância.
- A internet promove mudanças em nosso cotidiano.
- O encantamento provocado pela internet é ilusório.
- A infância é uma fase da vida permeada de belos sonhos.
- Os contos infantis são mais deslumbrantes que a internet.
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Gabarito
A
Comentário do professor
A alternativa aponta corretamente o tema central: que a maturidade reduz os sonhos infantis. O cronista recorda um delírio infantil — morar num palácio com “torneirinhas jorrando guaraná” — e explicita que “A injúria do tempo, somada ao desgaste dos anos, sepultou o delírio”, indicando o fechamento desse ciclo imaginativo.
Ao longo do texto, a internet surge como um sucedâneo imperfeito: evoca a lembrança e traz pequenas gotas de afeto, mas não restaura o sonho na íntegra. Assim, o enunciado resume com precisão a ideia de que a passagem do tempo atenua os devaneios da infância, sem negá‑los totalmente.
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