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Questão FC242768

A fala vegetal Não é mistério para os entendidos que há uma linguagem das plantas, ou, para ser mais exato, que a cada planta corresponde uma linguagem. Como a variedade de plantas

Interpretação de Textos (Compreensão)

CESGRANRIO · 2024

A fala vegetal

 

Não é mistério para os entendidos que há uma linguagem das plantas, ou, para ser mais exato, que a cada planta corresponde uma linguagem. Como a variedade de plantas é infinita, faz-se impossível ao entendimento, por muito atilado que seja, captar todas as vozes de vegetais. E só os mais perspicazes entre os humanos conseguem entender a conversa entre duas plantas de espécies diferentes: cada uma usa o seu vocabulário, como por exemplo num diálogo em que A falasse em espanhol e B respondesse em alemão.

 

Levindo, jardineiro experiente, chegou a dominar as linguagens que se entrecruzavam no jardim. Um leigo diria que não se escutava nada, salvo o zumbir de moscas e besouros, mas ele chegava a distinguir o suspiro de uma violeta, e suas confidências ao amor-perfeito não eram segredo para os ouvidos daquele homem.

 

Até que um dia as plantas desconfiaram que estavam sendo espionadas e planejaram a conspiração de silêncio contra Levindo. Passaram a comunicar-se por meio de sinais altamente sigilosos, renovados a cada semana. Em vão o jardineiro se acocorava a noite inteira no jardim, na esperança de decifrar o código. Enlouqueceu. Perdendo o emprego, as coisas não voltaram à normalidade. As plantas haviam esquecido o hábito de conversar direito. Já não se entendiam, brigavam de haste contra haste, muitas se aniquilaram em combate. O jardim foi invadido pelas cabras, que pastaram o restante da vegetação.

 

ANDRADE, Carlos Drummond de. Contos plausíveis. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

 

No parágrafo 4, o fragmento "que pastaram o restante da vegetação" evidencia um cenário de

  1. tédio
  2. desolação
  3. saudade
  4. desespero
  5. inconformismo
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Gabarito

B

Comentário do professor

A palavra adequada é desolação.

Observe o trecho: "que pastaram o restante da vegetação". O verbo indica que apenas sobrou uma pequena porção do jardim, consumida pelas cabras.

Antes disso, o texto relata que as plantas "se aniquilaram em combate": há um processo de autoextinção que reduz drasticamente a cobertura vegetal. O cenário resultante é de abandono e devastação, não de sentimento pessoal.

Portanto, desolação encaixa-se semanticamente como o estado de devastação ou ruína do lugar — um jardim arruinado, com pouca vegetação restante, precisamente aquilo que as cabras pastam.

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