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Questão FC242795

Texto Maria José Paulo Mendes Campos Faz um ano que Maria José morreu. Era meiga quase sempre, violenta quando necessário. Eu era menino e apanhava de um companheiro maior, quando

Interpretação de Textos (Compreensão)

CESGRANRIO · 2022

Texto

 

Maria José

Paulo Mendes Campos

 

Faz um ano que Maria José morreu. Era meiga quase sempre, violenta quando necessário. Eu era menino e apanhava de um companheiro maior, quando ela me gritou da sacada se eu não via a pedra que marcava o gol. Dei uma pedrada no outro e acabei com a briga por milagre.

 

Visitava os miseráveis, internava indigentes enfermos, devotava-se ao alívio de misérias físicas e morais do próximo, estudava o mistério teológico, exigia sempre o mais difícil de si mesma, comungava todos os dias, ingressou na Ordem Terceira de São Francisco. Mas nunca deixou de ter na gaveta o revólver que havia recebido, menina-e-moça, das mãos do pai, e que empunhou no quintal noturno, perseguindo um ladrão, para espanto de meus cinco anos.

 

Já perto dos setenta anos, ela explicava para um amigo meu que tinha chegado à humildade da velhice; já não se importava com quem tentasse ofendê-la, mas conservava o revólver para a defesa dos filhos e dos netos.

 

Tratou-me com a dureza e o carinho que mereciam a rebeldia e o verdor da minha meninice. Ensinou- me a ler as primeiras sentenças; me falava do Cura d’Ars e nos dois Franciscos, o de Sales e o de Assis; apresentou-me aos contos de Edgar Poe e aos poemas de Baudelaire; dizia-me sorrindo versos de Antônio Nobre que havia decorado quando menina; discutia comigo as ideias finais de Tolstoi; escutava maternalmente meus contos toscos. Quando me desgarrei nos primeiros envolvimentos adolescentes, Maria José, com irônico afeto, me repetia a advertência de Drummond: “Paulo, sossegue, o amor é isso que você está vendo: hoje beija, amanhã não beija, depois de amanhã é domingo e segunda-feira ninguém sabe o que será”.

 

Logo que me fiz homenzinho, deixou a dureza e se fez minha amiga: nada me perguntava, adivinhava tudo.

 

Terna e firme, nunca lhe vi a fraqueza da pieguice. Com o gosto espontâneo da qualidade das coisas, renunciou às vaidades mais singelas. Sensível, alegre, aprendeu a encarar o sofrimento de olhos lúcidos. Fiel à disciplina religiosa, compreendia celestialmente as almas que perdiam o rumo. Fé, Esperança e Caridade eram para ela a flecha e o alvo das criaturas.

 

Tornara-se tão íntima da substância terrestre – a dor – que se fazia difícil para o médico saber o que sentia; acabava dizendo que doía um pouco, por delicadeza.

 

Capaz de longos jejuns e abstinências, já no final da vida, podia acompanhar um casal amigo a Copacabana, passar do bar da moda ao restaurante diferente, beber dois cafés ou três uísques em santa serenidade e aceitar com alegria o prato exótico.

 

Gostava das pessoas erradas, consumidas de paixão, admirava São Paulo e Santo Agostinho, acreditava que era preciso se fazer violência para entrar no reino celeste.

 

Poucas horas antes de morrer, pediu um conhaque e sorriu, destemida e doce, como quem vai partir para o céu. Santificara-se. Deus era o dia e a noite de seu coração, o Pai, a piedade, o fogo do espírito. Perdi quem me amava e perdoava, quem me encomendava à compaixão do Criador e me defendia contra o mundo de revólver na mão.

 

Disponível em: https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/7173/maria- jose. Acesso em: 05 fev. 2022.

 

De acordo com o narrador, Maria José “Era meiga quase sempre, violenta quando necessário” (parágrafo 1)

 

Essa violência a que o narrador se refere pode ser comprovada no trecho:

  1. “ela me gritou da sacada se eu não via a pedra que marcava o gol. Dei uma pedrada no outro” (parágrafo 1)
  2. “Tratou-me com a dureza e o carinho que mereciam a rebeldia e o verdor da minha meninice.” (parágrafo 4)
  3. “Fé, Esperança e Caridade eram para ela a flecha e o alvo das criaturas.” (parágrafo 6)
  4. “Tornara-se tão íntima da substância terrestre – a dor” (parágrafo 7)
  5. “Gostava das pessoas erradas, consumidas de paixão” (parágrafo 9)
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Gabarito

A

Comentário do professor

“ela me gritou da sacada se eu não via a pedra que marcava o gol. Dei uma pedrada no outro” apresenta, de forma direta, o comportamento que justifica a afirmação do narrador de que ela era violenta quando necessário.

Ao gritar onde ficava a pedra, Maria José não só orienta uma ação física como incentiva uma reação agressiva em defesa do menino. A sequência — ordem verbal seguida de resultado concreto — evidencia intenção e eficácia da violência.

Trata-se, portanto, de uma prova textual cabal: a fala dela provoca um ato agressivo que resolve a situação, demonstrando que sua meiguice coexistia com disposição para recorrer à força quando exigido.

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