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Questão FC242817

Texto II Estojo escolar Noite dessas, ciscando num desses canais a cabo, vi uns caras oferecendo maravilhas eletrônicas, bastava telefonar e eu receberia um notebook capaz de me aj

Interpretação de Textos (Compreensão)

CESGRANRIO · 2019

Texto II

 

Estojo escolar

 

Noite dessas, ciscando num desses canais a cabo, vi uns caras oferecendo maravilhas eletrônicas, bastava telefonar e eu receberia um notebook capaz de me ajudar a fabricar um navio, uma estação  espacial.

 

Minhas necessidades são mais modestas: tenho um PC mastodôntico, contemporâneo das cavernas da informática. E um laptop da mesma época que começa a me deixar na mão. Como pretendo viajar esses dias, habilitei-me a comprar aquilo que os caras anunciavam como o top do top em matéria de computador portátil.

 

No sábado, recebi um embrulho complicado que necessitava de um manual de instruções para ser aberto. Depois de mil operações sofisticadas para minhas limitações, retirei das entranhas de isopor o novo notebook e coloquei-o em cima da mesa. De repente, como vem acontecendo nos últimos tempos, houve um corte na memória e vi diante de mim o meu primeiro estojo escolar. Tinha 5 anos e ia para o jardim de infância.

 

Era uma caixinha comprida, envernizada, com uma tampa que corria nas bordas do corpo principal. Dentro, arrumados em divisões, havia lápis coloridos, um apontador, uma lapiseira cromada, uma régua de 20 cm e uma borracha para apagar meus erros.

 

Da caixinha vinha um cheiro gostoso, cheiro que nunca esqueci e que me tonteava de prazer. Fechei o estojo para proteger aquele cheiro, que ele ficasse ali para sempre, prometi-me economizá-lo. Com avareza, só o cheirava em momentos especiais.

 

Na tampa que protegia estojo e cheiro havia gravado um ramo de rosas muito vermelhas que se destacavam do fundo creme. Amei aquele ramalhete – olhava aquelas rosas e achava que nada podia ser mais bonito.

 

O notebook que agora abro é negro, não tem rosas na tampa e, em matéria de cheiro, é abominável. Cheira vilmente a telefone celular, a cabine de avião, ao aparelho de ultrassonografia onde outro dia uma moça veio ver como sou por dentro. Acho que piorei de estojo e de vida.

 

CONY, C. H. Crônicas para ler na escola. São Paulo: Objetiva,

2009. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao

/fz12039806.htm>. Acesso em: 23 jul. 2019.

 

 

Com base na leitura de todo o Texto II, entende-se que ele tem como foco a contraposição entre

  1. cheiro de notebook e cheiro de estojo
  2. requinte e simplicidade
  3. sociedade e indivíduo
  4. presente e passado
  5. trabalho e lazer
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Gabarito

D

Comentário do professor

O texto articula uma contraposição temporal: recordações da infância versus a situação presente do narrador.

No plano do passado aparece o estojo escolar, descrito com detalhes sensoriais e afetivos — “tinha 5 anos”, o aroma guardado, as rosas gravadas — que sinalizam claramente uma memória.

No plano do presente surge o novo notebook: moderno, sem rosas, com cheiro “abominável” e ações narrativas no tempo atual — “que agora abro”, “pretendo viajar”, “recebi um embrulho”.

A oposição entre esses dois planos é construída por marcadores temporais e imagens contrastantes, mostrando que o foco do texto é justamente o confronto entre presente e passado.

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