Questão FC242846
O ano da esperança O ano de 2017 foi difícil. Avalio pelo número de amigos desempregados. E pedidos de empréstimos. Um atrás do outro. Nunca fui de botar dinheiro nas relações de a
Interpretação de Textos (Compreensão)
CESGRANRIO · 2018
O ano da esperança
O ano de 2017 foi difícil. Avalio pelo número de amigos desempregados. E pedidos de empréstimos. Um atrás do outro. Nunca fui de botar dinheiro nas relações de amizade. Como afirmou Shakespeare, perde-se o dinheiro e o amigo. Nos primeiros pedidos, eu ajudava, com a consciência de que era uma doação. A situação foi piorando. Os argumentos também. No início era para pagar a escola do filho. Depois vieram as mães e avós doentes. Lamentavelmente, aprendi a não ser generoso. Ajudava um rapaz, que não conheço pessoalmente. Mas que sofreu um acidente e não tinha como pagar a fisioterapia. Comecei pagando a físio. Vieram sucessivas internações, remédios. A situação piorando, eu já estava encomendando missa de sétimo dia. Falei com um amigo médico, no Rio de Janeiro. Ele aceitou tratar o caso gratuitamente. Surpresa! O doente não aparecia para a consulta. Até que o coloquei contra a parede. Ou se consultava ou eu não ajudava mais.
Cheio de saúde, ele foi ao consultório. Pediu uma receita de suplementos para ficar com o corpo atlético. Nunca conheci o sujeito, repito. Eu me senti um idiota por ter caído na história. Só que esse rapaz havia perdido o emprego após o suposto acidente. Foi por isso que me deixei enganar. Mas, ao perder salário, muita gente perde também a vergonha. Pior ainda. A violência aumenta. As pessoas buscam vagas
nos mercados em expansão. Se a indústria automobilística vai bem, é lá que vão trabalhar.
Podemos esperar por um futuro melhor ou o que nos aguarda é mais descrédito? Novos candidatos vão surgir. Serão novos? Ou os antigos? Ou novos com cabeça de velhos? Todos pedem que a gente tenha uma nova consciência para votar. Como? Num mundo em que as notícias são plantadas pela internet, em que muitos sites servem a qualquer mentira. Digo por mim. Já contaram cada história a meu respeito que nem sei o que dizer. Já inventaram casos de amor, tramas nas novelas que escrevo. Pior. Depois todo mundo me pergunta por que isso ou aquilo não aconteceu na novela. Se mudei a trama. Respondo:
— Nunca foi para acontecer. Era mentira da internet.
Duvidam. Acham que estou mentindo.
CARRASCO, W. O ano da esperança.
Época, 25 dez. 2017, p.97. Adaptado.
No texto, o autor diz que aprendeu a não ser generoso.
A circunstância que justifica essa atitude foi o fato de ele
- sentir-se enganado por um rapaz, que sofrera um acidente.
- já haver ajudado muitos amigos desempregados.
- estar ficando sem dinheiro para ajudar as pessoas que o procuravam.
- desconfiar de que alguém estava desviando o dinheiro de sua ajuda.
- ter uma formação muito rígida, voltada unicamente para a família.
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Gabarito
A
Comentário do professor
Sentir‑se enganado pelo rapaz que supostamente sofrera um acidente é a razão dada pelo autor para “aprender a não ser generoso”.
O texto relata evidência direta: ele começou pagando a fisioterapia, arcou com internações e remédios, e mesmo assim o doente não comparecia à consulta marcada com um amigo médico. Só após pressioná‑lo é que o rapaz foi ao consultório e pediu receita de suplementos — comportamento incompatível com quem realmente precisava de tratamento.
Essa sequência mostra sentimento de fraude e abuso da confiança, justificando a mudança de atitude do narrador: deixou de ser generoso para evitar novas decepções.
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