Questão FC242847
O ano da esperança O ano de 2017 foi difícil. Avalio pelo número de amigos desempregados. E pedidos de empréstimos. Um atrás do outro. Nunca fui de botar dinheiro nas relações de a
Interpretação de Textos (Compreensão)
CESGRANRIO · 2018
O ano da esperança
O ano de 2017 foi difícil. Avalio pelo número de amigos desempregados. E pedidos de empréstimos. Um atrás do outro. Nunca fui de botar dinheiro nas relações de amizade. Como afirmou Shakespeare, perde-se o dinheiro e o amigo. Nos primeiros pedidos, eu ajudava, com a consciência de que era uma doação. A situação foi piorando. Os argumentos também. No início era para pagar a escola do filho. Depois vieram as mães e avós doentes. Lamentavelmente, aprendi a não ser generoso. Ajudava um rapaz, que não conheço pessoalmente. Mas que sofreu um acidente e não tinha como pagar a fisioterapia. Comecei pagando a físio. Vieram sucessivas internações, remédios. A situação piorando, eu já estava encomendando missa de sétimo dia. Falei com um amigo médico, no Rio de Janeiro. Ele aceitou tratar o caso gratuitamente. Surpresa! O doente não aparecia para a consulta. Até que o coloquei contra a parede. Ou se consultava ou eu não ajudava mais.
Cheio de saúde, ele foi ao consultório. Pediu uma receita de suplementos para ficar com o corpo atlético. Nunca conheci o sujeito, repito. Eu me senti um idiota por ter caído na história. Só que esse rapaz havia perdido o emprego após o suposto acidente. Foi por isso que me deixei enganar. Mas, ao perder salário, muita gente perde também a vergonha. Pior ainda. A violência aumenta. As pessoas buscam vagas nos mercados em expansão. Se a indústria automobilística vai bem, é lá que vão trabalhar.
Podemos esperar por um futuro melhor ou o que nos aguarda é mais descrédito? Novos candidatos vão surgir. Serão novos? Ou os antigos? Ou novos com cabeça de velhos? Todos pedem que a gente tenha uma nova consciência para votar. Como? Num mundo em que as notícias são plantadas pela internet, em que muitos sites servem a qualquer mentira. Digo por mim. Já contaram cada história a meu respeito que nem sei o que dizer. Já inventaram casos de amor, tramas nas novelas que escrevo. Pior. Depois todo mundo me pergunta por que isso ou aquilo não aconteceu na novela. Se mudei a trama. Respondo:
— Nunca foi para acontecer. Era mentira da internet.
Duvidam. Acham que estou mentindo.
CARRASCO, W. O ano da esperança.
Época, 25 dez. 2017, p.97. Adaptado.
A última frase do segundo parágrafo tem a seguinte função na construção do texto:
- justificar a opção de trabalho das pessoas desempregadas.
- servir como ilustração para a afirmação contida na frase imediatamente anterior.
- complementar com ironia a relação entre violência e trânsito.
- introduzir um novo argumento para desenvolvê-lo no parágrafo seguinte.
- apresentar o autor do texto como um analista do mercado de trabalho.
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Gabarito
B
Comentário do professor
A frase final do segundo parágrafo — "Se a indústria automobilística vai bem, é lá que vão trabalhar." cumpre a função de ilustração da afirmação imediata anterior: "As pessoas buscam vagas nos mercados em expansão."
Ou seja, o período não apresenta um novo argumento, mas um exemplo concreto que torna palpável a ideia geral. Ao citar a indústria automobilística, o autor transfere a abstração para uma situação plausível, facilitando a compreensão do leitor.
Portanto, a frase exemplifica e confirma a hipótese lançada na oração precedente, servindo para esclarecer e ilustrar o comportamento descrito, sem introduzir desenvolvimento argumentativo adicional.
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