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Questão FC242849

Verdades na ficção Quem está acostumado a ler romance e conto não cai tão fácil em conto do vigário. Ou conto de político. Continuo acreditando que um dos melhores antídotos para a

Interpretação de Textos (Compreensão)

CESGRANRIO · 2018

Verdades na ficção

 

Quem está acostumado a ler romance e conto não cai tão fácil em conto do vigário. Ou conto de político.

 

Continuo acreditando que um dos melhores antídotos para a mentira é a ficção. Explico o paradoxo: quando lemos na mídia uma versão fantasiosa ou uma deturpação muito bem arranjadinha da realidade, somos mais suscetíveis de ser enganados se não estivermos acostumados a ler narrativas literárias, pois estaremos sujeitos ao embuste de acreditar em mentiras sem exigir coerência no relato ou sem atentar para detalhes deixados a descoberto. E no que se refere à psicologia dos personagens, o leitor desavisado é muito mais sujeito a aceitar qualquer versão, sem perceber discrepâncias evidentes mas disfarçadas em embalagens vistosas. Por tudo isso, quem está acostumado a ler romance e conto não cai tão fácil em conto do vigário. Ou conto de político. É menos propenso a ser vítima.

 

Movendo-se à vontade nesse universo da narrativa literária, que transfigura a experiência do real e lhe confere sentido, o cidadão que lê literatura tende a ter mais condições de separar o falso do verdadeiro. Liga um sinal de alerta e fica com um pé atrás, diante de mentiras embrulhadas para presente, destinadas a defender o indefensável, disfarçadas por papéis coloridos, adesivos brilhantes ou laçarotes de cetim. Percebe melhor quando dentro da caixa está a intenção de obstruir a Justiça, defender privilégios, manipular números, garantir o próprio poder ou salvar a pele. O opaco da enganação se torna transparente.

 

Volto então a um jogo que tenho proposto todo início de ano. Aproveitemos o verão para ler literatura. Romances, contos e até ensaios bem escritos — para quem se sente mais seguro se não tiver de enfrentar de cara uma realidade imaginada. Ótima leitura para eventuais férias. Utilíssima na formação de cidadãos democráticos. Quanto mais lermos, menos nos enganarão. Vá a uma livraria ou biblioteca e escolha um livro.

 

MACHADO, Ana Maria. Verdades na ficção. O Globo, 20 jan. 2018.

Disponível em: <https://oglobo.globo.com/opiniao/verdades-nafi

ccao-22308015>. Acesso em: 18 mar. 2018. (Fragmento).

 

 

De acordo com o texto, quem lê romances e contos tende a ter uma visão mais crítica da realidade, não se deixando enganar com tanta facilidade, porque

  1. é mais suscetível de perceber os descaminhos na ficção literária.
  2. tende a minimizar a coerência na versão dos fatos pela mídia.
  3. está mais propenso a ser vítima daquilo que a ele se mostra.
  4. está mais preparado para perceber a transfiguração do real.
  5. pode perceber a relevância da deturpação do que é literário.
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Gabarito

D

Comentário do professor

Segundo o texto, quem lê romances e contos movimenta-se com naturalidade no universo da narrativa literária, que transfigura a experiência do real.

Essa prática aguça a atenção para artifícios narrativos: incongruências, lacunas e gestos psicológicos pouco coerentes. Assim, o leitor aprende a notar quando a realidade foi estilizada ou maquiada.

Por isso ele fica com um sinal de alerta diante de versões vistosas da realidade, percebe detalhes omitidos e não aceita explicações que não se sustentam.

Em suma, a leitura frequente torna o cidadão mais preparado para identificar a “transfiguração do real” — ou seja, para distinguir o que é fabricação retórica do que é fato.

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