Questão FC242864
Texto I Gente Humilde Tem certos dias em que eu penso em minha gente E sinto assim todo o meu peito se apertar Porque parece que acontece de repente Feito um desejo de eu viver sem
Interpretação de Textos (Compreensão)
CESGRANRIO · 2018
Texto I
Gente Humilde
Tem certos dias em que eu penso em minha gente
E sinto assim todo o meu peito se apertar
Porque parece que acontece de repente
Feito um desejo de eu viver sem me notar
Igual a como quando eu passo no subúrbio
Eu muito bem, vindo de trem de algum lugar
E aí me dá como uma inveja dessa gente
Que vai em frente sem nem ter com quem contar
São casas simples com cadeiras na calçada
E na fachada escrito em cima que é um lar
Pela varanda, flores tristes e baldias
Como a alegria que não tem onde encostar
E aí me dá uma tristeza no meu peito
Feito um despeito de eu não ter como lutar
E eu que não creio peço a Deus por minha gente
É gente humilde, que vontade de chorar.
SARDINHA, A.A. (Garoto); HOLLANDA, C.B.; MORAES, V. Gente humilde. Intérprete: Chico Buarque. In: C.B. Hollanda nº 4. Direção de produção: Manoel Barebein. Rio de Janeiro: Companhia Brasileira de Discos, p1970. 1 disco sonoro. Lado 1, faixa 4.
No Texto I, os trechos “não creio” e “peço a Deus”, mantêm uma relação de sentido que é corretamente descrita da seguinte forma:
- “peço a Deus” é causa, e “não creio” é consequência.
- “não creio” é conclusão tirada a partir de “peço a Deus”.
- “peço a Deus” está em contradição com “não creio”.
- “peço a Deus” é explicação para “não creio”.
- “não creio” é condição para que ocorra “peço a Deus”.
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Gabarito
Certo
Comentário do professor
“não creio” e “peço a Deus” estabelecem, no verso, uma relação de oposição entre crença e ação: o eu lírico afirma não ter fé, mas simultaneamente recorre a Deus. Isso cria um contraste lógico e semântico.
Trata‑se de uma contradição de sentido — também interpretável como valor concessivo — em que a atitude (pedir socorro a Deus) conflita com a informação previa (não acreditar). Em outras palavras: mesmo negando a crença, o sujeito pratica um ato típico de fé.
Esse recurso expressa um paradoxo emocional: a compaixão e a angústia por sua gente levam o eu lírico a uma ação que contradiz sua declaração racional, razão pela qual a leitura correta é que “peço a Deus” está em contradição com “não creio”.
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