Questão FC242865
Carta aos meus filhos adolescentes Nossa relação mudará, não se assustem, continuo amando absurdamente cada um de vocês. Estarei sempre de plantão, para o que der e vier. Do mesmo
Interpretação de Textos (Compreensão)
CESGRANRIO · 2018
Carta aos meus filhos adolescentes
Nossa relação mudará, não se assustem, continuo amando absurdamente cada um de vocês. Estarei sempre de plantão, para o que der e vier. Do mesmo jeito, com a mesma vontade de ajudar.
É uma fase necessária: uma aparência de indiferença recairá em nossos laços, uma casca de tédio grudará em nossos olhares.
Mas não durará a vida inteira, posso garantir.
Nossa comunicação não será tão fácil como antes. A adolescência altera a percepção dos pais, tornei-me o chato daqui por diante.
Eu me preparei para a desimportância, guardei estoque de cartõezinhos e cartas de vocês pequenos, colecionei na memória as declarações de “eu te amo” da última década, ciente de que não ouvirei nenhuma jura por um longo tempo.
A vida será mais árida, mais constrangedora, mais lacônica. É um período de estranheza, porém essencial e corajoso. Todos experimentam isso, em qualquer família, não tem como adiar ou fugir.
Serei obrigado agora a bater no quarto de vocês e aguardar uma licença. Existe uma casa chaveada no interior de nossa casa. Não desfruto de chave, senha, passaporte. Não posso aparecer abrindo a porta de repente. Às vezes mandarei um WhatsApp apenas para saber onde estão, mesmo quando estiverem dentro do apartamento. Passarei essa vergonha.
Perguntarei como estão e ganharei monossílabos de presente. Talvez um ok. Talvez a sorte de um tudo bem. As confissões não acontecerão espontaneamente.
“Me deixe em paz” despontará como refrão diante de qualquer cobrança.
Precisarei ser mais persuasivo. Nem alcanço alguma ideia de como, para mim também é uma experiência nova, tampouco sei agir. Os namoros e os amigos assumirão as suas prioridades.
Verei vocês somente saindo ou chegando, desprovido de convergência para um abraço demorado.
Já não me acharão um máximo, já não sou grande coisa. Perceberam os meus pontos fracos, decoraram os meus defeitos, não acreditam mais em minhas histórias, não sou a única versão de vocês. Qualquer informação que digo, vão checar no Google.
Mas vamos sobreviver: o meu amor é imenso para resistir ao teste da diferença de idade e de geração. Espero vocês do outro lado da ternura, quando tiverem a minha idade.
CARPINEJAR, F. Carta aos meus filhos adolescentes. Disponível em: <https://blogs.oglobo.globo.com/fabricio-carpinejar/post/carta-aos-meus-fi lhos-adolescentes.html>. Acesso em: 10 jul. 2018. Adaptado.
O texto, que aborda relações familiares, tem como tema central a(o)
- difícil tarefa de cuidar dos idosos
- pouca atenção dispensada às crianças
- intolerância dos velhos para com os mais jovens
- excesso de dedicação destinada aos pais
- distanciamento dos adolescentes em relação a seus pais
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Comentário do professor
O tema central do texto é o distanciamento entre adolescentes e seus pais.
O autor descreve diretamente essa mudança: “uma aparência de indiferença”, “nossa comunicação não será tão fácil”, e que se tornou “o chato daqui por diante”.
Vê‑se também nas imagens concretas do afastamento: bater na porta esperando licença, “casa chaveada”, enviar WhatsApp apenas para saber onde estão, receber monossílabos e ouvir “me deixe em paz”.
Importante: o texto qualifica esse distanciamento como uma fase necessária e temporária — “mas não durará a vida inteira” — o que explica seu caráter evolutivo.
Assim, o foco do texto não é conflito definitivo, mas a transformação da relação parental pela adolescência, que afasta temporariamente afetos e comunicação.
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