Questão FC242871
Velhas casas Tenho um amigo arquiteto que gosta de me falar de velhas casas brasileiras, da simplicidade e do gosto dos antigos mestres de obra, dos homens práticos que encheram o
Interpretação de Textos (Compreensão)
CESGRANRIO · 2018
Velhas casas
Tenho um amigo arquiteto que gosta de me falar de velhas casas brasileiras, da simplicidade e do gosto dos antigos mestres de obra, dos homens práticos que encheram o Brasil de casarões, de igrejas, de cidades.
O meu amigo vê a casa como um técnico, um especialista, o homem que ama a sua profissão. Com ele andei pelos solares de Vassouras. E vi e senti o seu entusiasmo diante dos velhos sobrados do café. As soluções encontradas pelos antigos, a sobriedade, a solidez, a marca do lusitano transplantado, sempre mereciam dele uma crítica de quem admirava tudo e, às vezes, se espantava. Havia, de fato, grandeza no que aquela gente fizera.
Sérgio Buarque de Hollanda fala no caráter empírico das cidades portuguesas da América. Em confronto com os espanhóis, os portugueses fundaram as suas cidades com liberdade, dando mais vida, mais força aos seus criadores. O instinto, a intuição, a necessidade de viver comandava-os. Não seriam conduzidos por urbanistas, seriam levados pela necessidade, pelo arrojo, pelos fatos. Mas esta energia nunca se desmandou. As casas portuguesas nunca seriam um despropósito. Havia na arquitetura que eles nos legaram um toque de sobriedade que é uma maravilha de equilíbrio. O barroco, que se excedera nos interiores das igrejas, contivera-se nos exteriores. Era até aí de uma simplicidade tocante. Na arquitetura residencial quase que ele não se fez sentir. A pureza de linhas, o gosto, o chão dos nossos sobrados falam de homens que amavam mais a solidez do que o ornato. Os mestres de obras não eram individualistas, artistas que quisessem dar um sinal de sua personalidade. Eles edificavam, construíam.
REGO, José Lins do. In: O Cravo de Mozart é eterno: crônicas e ensaios. Rio de Janeiro: José Olympio, 2004, p. 303-4. Adaptado.
Uma das virtudes na construção dessas casas tão elogiadas no texto é que seus criadores eram “levados pela necessidade, pelo arrojo, pelos fatos”.
Essa afirmação serve como argumento para criticar os
- espanhóis
- urbanistas
- arquitetos
- portugueses
- criadores
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Gabarito
B
Comentário do professor
O texto contrapõe duas formas de criação urbana para valorizar a prática dos antigos mestres: a frase “Não seriam conduzidos por urbanistas, seriam levados pela necessidade, pelo arrojo, pelos fatos” coloca urbanistas como contraponto.
Essa construção funciona como argumento crítico porque destaca que a origem das soluções vinha do instinto e da experiência, não de orientações técnicas externas. Ao opor os termos, o autor sugere que a ação dos urbanistas seria menos espontânea, menos vital e, implicitamente, menos adequada ao contexto histórico das casas.
Em suma, a expressão elabora uma antítese que desacredita a autoridade dos urbanistas, usando a autonomia prática dos construtores como evidência valorizadora.
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