Questão FC242878
Meu pai também acreditava que o banho de mar salutar era o tomado antes de o sol nascer. Como explicar o que eu sentia de presente prodigioso em sair de casa de madrugada e pegar o
Interpretação de Textos (Compreensão)
CESGRANRIO · 2016
Banhos de mar
Meu pai acreditava que todos os anos se devia fazer uma cura de banhos de mar. E nunca fui tão feliz quanto naquelas temporadas de banhos em Olinda, Recife.
Meu pai também acreditava que o banho de mar salutar era o tomado antes de o sol nascer. Como explicar o que eu sentia de presente prodigioso em sair de casa de madrugada e pegar o bonde vazio que nos levaria para Olinda ainda na escuridão?
De noite eu ia dormir, mas o coração se mantinha acordado, em expectativa. E de puro alvoroço, eu acordava às quatro e pouco da madrugada e despertava o resto da família. Nós nos vestíamos depressa e saíamos em jejum. Porque meu pai acreditava que assim devia ser: em jejum.
Saímos para uma rua toda escura, recebendo a brisa da pré-madrugada. E esperávamos o bonde. Até que lá de longe ouvíamos o seu barulho se aproximando. Eu me sentava bem na ponta do banco, e minha felicidade começava. Atravessar a cidade escura me dava algo que jamais tive de novo. No bonde mesmo o tempo começava a clarear, e uma luz trêmula de sol escondido nos banhava e banhava o mundo.
Eu olhava tudo: as poucas pessoas na rua, a passagem pelo campo com os bichos-de-pé: “Olhe, um porco de verdade!” gritei uma vez, e a frase de deslumbramento ficou sendo uma das brincadeiras da minha família, que de vez em quando me dizia rindo: “Olhe, um porco de verdade.”
Eu não sei da infância alheia. Mas essa viagem diária me tornava uma criança completa de alegria. E me serviu como promessa de felicidade para o futuro. Minha capacidade de ser feliz se revelava. Eu me agarrava, dentro de uma infância muito infeliz, a essa ilha encantada que era a viagem diária.
LISPECTOR, C. A Descoberta do Mundo. São Paulo: Rocco, 1999, p. 175. Adaptado.
No Texto, a narradora diz que “uma luz trêmula de sol escondido nos banhava e banhava o mundo”.
Essa imagem apresenta indícios de que
- o sol estava encoberto, talvez por nuvens, talvez por folhagens.
- uma inversão entre o sol e sua luz justifica essa visão subjetiva.
- a luz parecia reproduzir as mesmas emoções da menina.
- o dia amanhecia mais tarde do que o costumeiro.
- os banhos de mar aconteciam em qualquer lugar.
Mostrar resposta e comentário
Gabarito
A
Comentário do professor
A expressão "uma luz trêmula de sol escondido" indica que o brilho solar estava presente, porém não pleno: o sol não se via com clareza — estava encoberto.
O adjetivo trêmula sugere luz fraca, oscilante ou filtrada, característica de um astro parcialmente escondido por obstáculos que permitem apenas raios tênues.
Como o texto não especifica o agente do encobrimento, a interpretação segue pela inferência: pode ser nuvens ou folhagens, entre outras causas possíveis. O uso de "talvez" nas alternativas reflete corretamente esse caráter hipotético.
Assim, a frase comunica claramente que o sol estava oculto, embora seus raios alcançassem e “banhassem” a narradora e o ambiente de forma suave e descontínua.
Conteúdo do catálogo FC Concursos · Atualizado em