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Questão FC242879

Que fragmento do Texto I comprova a valorização especial que a narradora dava a esse momento de sua infância?

Interpretação de Textos (Compreensão)

CESGRANRIO · 2016

Banhos de mar

 

Meu pai acreditava que todos os anos se devia fazer uma cura de banhos de mar. E nunca fui tão feliz quanto naquelas temporadas de banhos em Olinda, Recife.

 

Meu pai também acreditava que o banho de mar salutar era o tomado antes de o sol nascer(a). Como explicar o que eu sentia de presente prodigioso em sair de casa de madrugada e pegar o bonde vazio que nos levaria para Olinda ainda na escuridão?

 

De noite eu ia dormir, mas o coração se mantinha acordado, em expectativa. E de puro alvoroço, eu acordava às quatro e pouco da madrugada e despertava o resto da família. Nós nos vestíamos depressa e saíamos em jejum(b). Porque meu pai acreditava que assim devia ser: em jejum.

 

Saímos para uma rua toda escura, recebendo a brisa da pré-madrugada. E esperávamos o bonde. Até que lá de longe ouvíamos o seu barulho se aproximando. Eu me sentava bem na ponta do banco, e minha felicidade começava. Atravessar a cidade escura me dava algo que jamais tive de novo. No bonde mesmo o tempo começava a clarear(c), e uma luz trêmula de sol escondido nos banhava e banhava o mundo.

 

Eu olhava tudo: as poucas pessoas na rua, a passagem pelo campo com os bichos-de-pé: “Olhe, um porco de verdade!” gritei uma vez, e a frase de deslumbramento ficou sendo uma das brincadeiras da minha família(d), que de vez em quando me dizia rindo: “Olhe, um porco de verdade.”

 

Eu não sei da infância alheia. Mas essa viagem diária me tornava uma criança completa de alegria. E me serviu como promessa de felicidade para o futuro. Minha capacidade de ser feliz se revelava. Eu me agarrava, dentro de uma infância muito infeliz, a essa ilha encantada que era a viagem diária(e).

 

LISPECTOR, C. A Descoberta do Mundo. São Paulo: Rocco, 1999, p. 175. Adaptado.

 

Que fragmento do Texto I comprova a valorização especial que a narradora dava a esse momento de sua infância?

  1. “Meu pai também acreditava que o banho de mar salutar era o tomado antes de o sol nascer” 
  2. “Nós nos vestíamos depressa e saíamos em jejum” 
  3. “No bonde mesmo o tempo começava a clarear” 
  4. “a frase de deslumbramento ficou sendo uma das brincadeiras da minha família”
  5. “Eu me agarrava [...] a essa ilha encantada que era a viagem diária” 
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Gabarito

Errado

Comentário do professor

“Eu me agarrava” revela, em primeira pessoa, um apego ativo: não é apenas memória, é atitude de quem se prende a algo que traz segurança e prazer.

A metáfora “ilha encantada” transforma a experiência num espaço exclusivo e mágico, indicando que essa rotina tinha valor afetivo além do habitual.

Ao qualificar como “viagem diária”, o trecho destaca a repetição ritualizada — não um episódio isolado, mas uma prática que estruturou a infância da narradora.

Esses elementos juntos evidenciam um vínculo afetivo e um refúgio emocional: a viagem para o banho de mar funcionava como promessa de felicidade e contrapeso à sua infância infeliz.

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