Questão FC242885
O suor e a lágrima Fazia calor no Rio, 40 graus e qualquer coisa, quase 41. No dia seguinte, os jornais diriam que fora o mais quente deste verão que inaugura o século e o milênio.
Interpretação de Textos (Compreensão)
CESGRANRIO · 2016
O suor e a lágrima
Fazia calor no Rio, 40 graus e qualquer coisa, quase 41. No dia seguinte, os jornais diriam que fora o mais quente deste verão que inaugura o século e o milênio. Cheguei ao Santos Dumont, o vôo estava atrasado, decidi engraxar os sapatos. Pelo menos aqui no Rio, são raros esses engraxates, só existem nos aeroportos e em poucos lugares avulsos.
Sentei-me naquela espécie de cadeira canônica, de coro de abadia pobre, que também pode parecer o trono de um rei desolado de um reino desolante.
O engraxate era gordo e estava com calor — o que me pareceu óbvio. Elogiou meus sapatos, cromo italiano, fabricante ilustre, os Rosseti. Uso-o pouco, em parte para poupá-lo, em parte porque quando posso estou sempre de tênis.
Ofereceu-me o jornal que eu já havia lido e começou seu ofício. Meio careca, o suor encharcou-lhe a testa e a calva. Pegou aquele paninho que dá brilho final nos sapatos e com ele enxugou o próprio suor, que era abundante.
Com o mesmo pano, executou com maestria aqueles movimentos rápidos em torno da biqueira, mas a todo instante o usava para enxugar-se — caso contrário, o suor inundaria o meu cromo italiano.
E foi assim que a testa e a calva do valente filho do povo ficaram manchadas de graxa e o meu sapato adquiriu um brilho de espelho à custa do suor alheio. Nunca tive sapatos tão brilhantes, tão dignamente suados.
Na hora de pagar, alegando não ter nota menor, deixei-lhe um troco generoso. Ele me olhou espantado, retribuiu a gorjeta me desejando em dobro tudo o que eu viesse a precisar nos restos dos meus dias.
Saí daquela cadeira com um baita sentimento de culpa. Que diabo, meus sapatos não estavam tão sujos assim, por míseros tostões, fizera um filho do povo suar para ganhar seu pão. Olhei meus sapatos e tive vergonha daquele brilho humano, salgado como lágrima.
CONY, C. H. In: NESTROVSKI, A. (Org.). Figuras do Brasil – 80
autores em 80 anos de Folha. São Paulo: Publifolha. 2001. p. 319.
O uso dos adjetivos destacados em “rei desolado de um reino desolante” justifica-se pelo fato de o autor
- demonstrar-se triste pela condição do engraxate.
- sentir-se incomodado pelo forte calor no Rio.
- encontrar-se solitário numa cidade nova.
- entender-se tão oprimido quanto o engraxate.
- revelar-se como alguém sem compaixão.
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Gabarito
B
Comentário do professor
Os adjetivos desolado e desolante aparecem numa comparação em que o narrador se identifica com um "rei" e a cidade com seu "reino", formando uma metáfora que descreve o estado do próprio narrador.
Lexicalmente, desolado indica alguém abatido, incomodado ou aflito; desolante qualifica aquilo que provoca esse abatimento. No contexto imediato, o narrador acaba de chegar ao aeroporto sob um calor intenso.
Como ainda não há referência ao engraxate, os adjetivos não se aplicam a terceiros, mas ao incômodo do narrador diante do clima. Assim, as expressões justificam-se por ele sentir-se incomodado pelo forte calor que fazia no Rio.
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