FC ConcursosFC Concursos

Questão FC242892

Afinal, somos nós que brincamos o carnaval ou é o carnaval que brinca conosco o tempo todo?

Interpretação de Textos (Compreensão)

CESGRANRIO · 2016

Texto III


Quando eu for bem velhinho — continuação 2


O tempo do carnaval era obrigatório. A despeito de todas as mudanças, ele continua sendo a pausa que dá sentido e razão ao tempo como uma majestade humana. Este imperador sem rivais que diz que passa quando, de fato, quem passa somos nós.


Uma lenda escandinava, traduzida à luz da análise pelo sábio das línguas e costumes euro- -europeus Georges Dumézil, conta a história de um camponês que, sem querer, libertou o diabo de um caixote que ele transportava para um padre na sua carroça. Livre e solto, o diabo — que está sempre fazendo alguma coisa — começou a surrar o seu involuntário libertador, perguntando ansiosamente: “O que devo fazer?” O camponês mandou que ele construísse uma ponte de pedra e, em instantes, ela ficou pronta. E logo o diabo perguntou novamente: “O que devo fazer?” O camponês mandou que o diabo juntasse todos os excrementos de cavalo do reino da Dinamarca e, num instante, a tarefa estava cumprida. Aterrorizado porque ia apanhar novamente, o camponês teve a feliz ideia de mandar que o diabo recuperasse o tempo. Sabendo que o tempo era precioso, o diabo saiu em sua busca, mas não conseguia alcançá-lo. Trouxe dele pedaços, mas não o tempo inteiro como ordenara o camponês. Não tendo observado a tarefa, o diabo voltou para a caixa.


O tempo como potência impossível de ser apanhada foi brilhantemente descrito por Frei Antônio das Chagas num poema escrito nos mil seiscentos e tanto:


Deus pede estrita conta de meu tempo.
E eu vou do meu tempo dar-lhe conta.
Mas como dar, sem tempo, tanta conta
Eu, que gastei, sem conta, tanto tempo?


Para dar minha conta feita a tempo,
O tempo me foi dado e não fiz conta,
Não quis, sobrando tempo, fazer conta.
Hoje, quero acertar conta, e não há tempo.


Oh, vós, que tendes tempo sem ter conta,
Não gasteis vosso tempo em passatempo.
Cuidai, enquanto é tempo, em vossa conta!


Pois aqueles que, sem conta, gastam tempo,
Quando o tempo chegar de prestar conta,
Chorarão, como eu, o não ter tempo..
.


Afinal, somos nós que brincamos o carnaval ou é o carnaval que brinca conosco o tempo todo?


DAMATTA, R. O Globo, Rio de Janeiro, 10 fev. 2016. Primeiro Caderno, p. 13. Adaptado.

 

A lenda escandinava mencionada no 2º parágrafo do Texto III fala de um camponês que, acidentalmente, libertou o diabo de um caixote. O autor apresenta essa história, contando as ações dos dois personagens.


A passagem que revela que o diabo “está sempre fazendo alguma coisa” deve ser interpretada como um(a)

  1. inserção opinativa do próprio autor na história original.
  2. confissão supersticiosa do autor diante dos temas religiosos.
  3. crítica do camponês às crendices populares escandinavas.
  4. comentário do padre ao camponês antes de transportar a carroça.
  5. lembrete feito pelo tradutor da história sobre os encantos das lendas.
Mostrar resposta e comentário

Gabarito

A

Comentário do professor

A alternativa indicada aponta corretamente para uma inserção opinativa do próprio autor na narrativa da lenda. O trecho destacado aparece entre travessões, recurso que interrompe a narrativa para incluir um comentário do narrador.

Esse comentário não pertence à tradição da lenda em si, mas qualifica o personagem com uma generalização — "está sempre fazendo alguma coisa" — que reflete julgamento ou interpretação do autor sobre o diabo.

Assim, a presença dos sinais gráficos e o caráter explicativo da fala indicam uma intervenção do narrador jornalístico, não um elemento originário da história contada.

Portanto, trata-se de uma observação do autor inserida na reprodução da lenda, isto é, uma inserção opinativa.

Conteúdo do catálogo FC Concursos · Atualizado em

Continue aprendendo