Questão FC242933
Não é que o canário tinha ressuscitado, perdão, reluzia vivinho da silva, com uma fome danada?
Interpretação de Textos (Compreensão)
CESGRANRIO · 2015
Texto I
Caso de canário
Casara-se havia duas semanas. Por isso, em casa dos sogros, a família resolveu que ele é que daria cabo do canário:
— Você compreende. Nenhum de nós teria coragem de sacrificar o pobrezinho, que nos deu tanta alegria. Todos somos muito ligados a ele, seria uma barbaridade. Você é diferente, ainda não teve tempo de afeiçoar-se ao bichinho. Vai ver que nem reparou nele, durante o noivado.
— Mas eu também tenho coração, ora essa(a). Como é que vou matar um pássaro só porque o conheço há menos tempo do que vocês?
— Porque não tem cura, o médico já disse. Pensa que não tentamos tudo? É para ele não sofrer mais(b) e não aumentar o nosso sofrimento. Seja bom; vá.
O sogro, a sogra apelaram no mesmo tom. Os olhos claros de sua mulher pediram-lhe com doçura:
— Vai, meu bem.
Com repugnância pela obra de misericórdia que ia praticar, ele aproximou-se da gaiola. O canário nem sequer abriu o olho. Jazia a um canto, arrepiado, morto-vivo. É, esse está mesmo na última lona, e dói ver a lenta agonia de um ser tão gracioso(c), que viveu para cantar.
— Primeiro me tragam um vidro de éter e algodão. Assim ele não sentirá o horror da coisa.
Embebeu de éter a bolinha de algodão, tirou o canário para fora com infinita delicadeza, aconchegou-o na palma da mão esquerda e, olhando para outro lado, aplicou-lhe a bolinha no bico. Sempre sem olhar para a vítima, deu-lhe uma torcida rápida e leve, com dois dedos no pescoço.
E saiu para a rua, pequenino por dentro, angustiado(d), achando a condição humana uma droga. As pessoas da casa não quiseram aproximar-se do cadáver. Coube à cozinheira recolher a gaiola(e), para que sua vista não despertasse saudade e remorso em ninguém. Não havendo jardim para sepultar o corpo, depositou-o na lata de lixo.
Chegou a hora de jantar, mas quem é que tinha fome naquela casa enlutada? O sacrificador, esse ficara rodando por aí, e seu desejo seria não voltar para casa nem para dentro de si mesmo.
No dia seguinte, pela manhã, a cozinheira foi ajeitar a lata de lixo para o caminhão, e recebeu uma bicada voraz no dedo.
— Ui!
Não é que o canário tinha ressuscitado, perdão, reluzia vivinho da silva, com uma fome danada?
— Ele estava precisando mesmo era de éter — concluiu o estrangulador, que se sentiu ressuscitar, por sua vez.
ANDRADE, C. D. Cadeira de Balanço. Rio de Janeiro: José Olympio, 1966.
A certa altura do Texto I, é possível perceber que o rapaz se compadece do canário e resolve sacrificá-lo. O trecho em que se expressa esse sentimento e que antecede essa decisão é:
- “— Mas eu também tenho coração, ora essa.”
- “É para ele não sofrer mais”
- “dói ver a lenta agonia de um ser tão gracioso”
- “E saiu para a rua, pequenino por dentro, angustiado”
- “Coube à cozinheira recolher a gaiola"
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Gabarito
Certo
Comentário do professor
“dói ver a lenta agonia de um ser tão gracioso” expressa, de forma direta, o sentimento que motiva a ação do rapaz: compaixão diante do sofrimento do canário.
O verbo dói funciona como julgamento moral e sensorial; não é descrição neutra, é reação pessoal que antecede a escolha. Revela empatia e urgência.
Na sequência imediata, o narrador descreve os gestos do rapaz — pedir éter, aproximar-se com delicadeza — confirmação de que essa dor percebida o leva à decisão.
Assim, o trecho sintetiza a razão íntima do ato: o desejo de aliviar o sofrimento do animal, configurando o dilema e justificando a “obra de misericórdia”.
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