FC ConcursosFC Concursos

Questão FC242934

Não é que o canário tinha ressuscitado, perdão, reluzia vivinho da silva, com uma fome danada?

Interpretação de Textos (Compreensão)

CESGRANRIO · 2015

Texto I

Caso de canário

 

Casara-se havia duas semanas. Por isso, em casa dos sogros, a família resolveu que ele é que daria cabo do canário:

 

— Você compreende. Nenhum de nós teria coragem de sacrificar o pobrezinho, que nos deu tanta alegria. Todos somos muito ligados a ele, seria uma barbaridade. Você é diferente, ainda não teve tempo de afeiçoar-se ao bichinho. Vai ver que nem reparou nele, durante o noivado.

 

— Mas eu também tenho coração, ora essa. Como é que vou matar um pássaro só porque o conheço há menos tempo do que vocês?

 

— Porque não tem cura, o médico já disse. Pensa que não tentamos tudo? É para ele não sofrer mais e não aumentar o nosso sofrimento. Seja bom; vá.

 

O sogro, a sogra apelaram no mesmo tom. Os olhos claros de sua mulher pediram-lhe com doçura:

 

— Vai, meu bem.

 

Com repugnância pela obra de misericórdia que ia praticar, ele aproximou-se da gaiola. O canário nem sequer abriu o olho. Jazia a um canto, arrepiado, morto-vivo. É, esse está mesmo na última lona, e dói ver a lenta agonia de um ser tão gracioso, que viveu para cantar.

 

— Primeiro me tragam um vidro de éter e algodão. Assim ele não sentirá o horror da coisa.

 

Embebeu de éter a bolinha de algodão, tirou o canário para fora com infinita delicadeza, aconchegou-o na palma da mão esquerda e, olhando para outro lado, aplicou-lhe a bolinha no bico. Sempre sem olhar para a vítima, deu-lhe uma torcida rápida e leve, com dois dedos no pescoço.

 

E saiu para a rua, pequenino por dentro, angustiado, achando a condição humana uma droga. As pessoas da casa não quiseram aproximar-se do cadáver. Coube à cozinheira recolher a gaiola, para que sua vista não despertasse saudade e remorso em ninguém. Não havendo jardim para sepultar o corpo, depositou-o na lata de lixo.

 

Chegou a hora de jantar, mas quem é que tinha fome naquela casa enlutada? O sacrificador, esse ficara rodando por aí, e seu desejo seria não voltar para casa nem para dentro de si mesmo.

 

No dia seguinte, pela manhã, a cozinheira foi ajeitar a lata de lixo para o caminhão, e recebeu uma bicada voraz no dedo.

 

— Ui!

 

Não é que o canário tinha ressuscitado, perdão, reluzia vivinho da silva, com uma fome danada?

 

— Ele estava precisando mesmo era de éter — concluiu o estrangulador, que se sentiu ressuscitar, por sua vez.

ANDRADE, C. D. Cadeira de Balanço. Rio de Janeiro: José Olympio, 1966.

 

A pergunta “mas quem é que tinha fome naquela casa enlutada?” revela que o autor do Texto I

  1. espera por uma resposta.
  2. requisita uma informação.
  3. convoca para uma conversa.
  4. demonstra uma preocupação.
  5. enfatiza a gravidade da situação.
Mostrar resposta e comentário

Gabarito

Errado

Comentário do professor

A pergunta destacada funciona como pergunta retórica: não busca resposta factual, mas serve para intensificar a impressão deixada pela cena.

Ao interrogar “mas quem é que tinha fome naquela casa enlutada?”, o narrador contrasta a rotina do jantar com o clima de luto, mostrando que o evento (o sacrifício do canário) anulou desejos e apetite. Essa formulação concentra a atenção do leitor na dimensão emocional do episódio.

Em suma, o recurso retórico enfatiza a profundidade do sofrimento coletivo, revelando a gravidade da situação e a incapacidade dos personagens de retomar a normalidade imediata.

Conteúdo do catálogo FC Concursos · Atualizado em

Continue aprendendo