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Questão FC242935

Não é que o canário tinha ressuscitado, perdão, reluzia vivinho da silva, com uma fome danada?

Interpretação de Textos (Compreensão)

CESGRANRIO · 2015

Texto I

Caso de canário

 

Casara-se havia duas semanas. Por isso, em casa dos sogros, a família resolveu que ele é que daria cabo do canário:

 

— Você compreende. Nenhum de nós teria coragem de sacrificar o pobrezinho, que nos deu tanta alegria. Todos somos muito ligados a ele, seria uma barbaridade. Você é diferente, ainda não teve tempo de afeiçoar-se ao bichinho. Vai ver que nem reparou nele, durante o noivado.

 

— Mas eu também tenho coração, ora essa. Como é que vou matar um pássaro só porque o conheço há menos tempo do que vocês?

 

— Porque não tem cura, o médico já disse. Pensa que não tentamos tudo? É para ele não sofrer mais e não aumentar o nosso sofrimento. Seja bom; vá.

 

O sogro, a sogra apelaram no mesmo tom. Os olhos claros de sua mulher pediram-lhe com doçura:

 

— Vai, meu bem.

 

Com repugnância pela obra de misericórdia que ia praticar, ele aproximou-se da gaiola. O canário nem sequer abriu o olho. Jazia a um canto, arrepiado, morto-vivo. É, esse está mesmo na última lona, e dói ver a lenta agonia de um ser tão gracioso, que viveu para cantar.

 

— Primeiro me tragam um vidro de éter e algodão. Assim ele não sentirá o horror da coisa.

 

Embebeu de éter a bolinha de algodão, tirou o canário para fora com infinita delicadeza, aconchegou-o na palma da mão esquerda e, olhando para outro lado, aplicou-lhe a bolinha no bico. Sempre sem olhar para a vítima, deu-lhe uma torcida rápida e leve, com dois dedos no pescoço.

 

E saiu para a rua, pequenino por dentro, angustiado, achando a condição humana uma droga. As pessoas da casa não quiseram aproximar-se do cadáver. Coube à cozinheira recolher a gaiola, para que sua vista não despertasse saudade e remorso em ninguém. Não havendo jardim para sepultar o corpo, depositou-o na lata de lixo.

 

Chegou a hora de jantar, mas quem é que tinha fome naquela casa enlutada? O sacrificador, esse ficara rodando por aí, e seu desejo seria não voltar para casa nem para dentro de si mesmo.

 

No dia seguinte, pela manhã, a cozinheira foi ajeitar a lata de lixo para o caminhão, e recebeu uma bicada voraz no dedo.

 

— Ui!

 

Não é que o canário tinha ressuscitado, perdão, reluzia vivinho da silva, com uma fome danada?

 

— Ele estava precisando mesmo era de éter — concluiu o estrangulador, que se sentiu ressuscitar, por sua vez.

ANDRADE, C. D. Cadeira de Balanço. Rio de Janeiro: José Olympio, 1966.

 

No Texto I, em “Com repugnância pela obra de misericórdia que ia praticar”, a obra de misericórdia mencionada diz respeito à(ao)

  1. uso de éter
  2. sacrifício do canário
  3. retirada do canário da gaiola
  4. remoção da gaiola pela cozinheira
  5. depósito do cadáver na lata de lixo
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Gabarito

B

Comentário do professor

No contexto, a expressão obra de misericórdia aponta claramente para o sacrifício do canário. O diálogo e a narrativa mostram que a família pede ao genro que acabe com a vida do pássaro para poupar-lhe a “lenta agonia” de uma doença sem cura, apresentando esse fim como um gesto compadecido.

O comportamento do personagem confirma essa leitura: ele recebe a incumbência, prepara o procedimento com cuidado e executa o ato sofrido — atitudes que caracterizam o término da vida como meio de aliviar o sofrimento do animal.

Portanto, interpretar “obra de misericórdia” como o ato de sacrificar o animal para acabar com seu sofrimento é a conclusão direta e sustentada pelas informações do texto.

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