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Questão FC242938

Não é que o canário tinha ressuscitado, perdão, reluzia vivinho da silva, com uma fome danada?

Interpretação de Textos (Compreensão)

CESGRANRIO · 2015

Texto I

Caso de canário

 

Casara-se havia duas semanas. Por isso, em casa dos sogros, a família resolveu que ele é que daria cabo do canário:

 

— Você compreende. Nenhum de nós teria coragem de sacrificar o pobrezinho, que nos deu tanta alegria. Todos somos muito ligados a ele, seria uma barbaridade. Você é diferente, ainda não teve tempo de afeiçoar-se ao bichinho. Vai ver que nem reparou nele, durante o noivado.

 

— Mas eu também tenho coração, ora essa. Como é que vou matar um pássaro só porque o conheço há menos tempo do que vocês?

 

— Porque não tem cura, o médico já disse. Pensa que não tentamos tudo? É para ele não sofrer mais e não aumentar o nosso sofrimento. Seja bom; vá.

 

O sogro, a sogra apelaram no mesmo tom. Os olhos claros de sua mulher pediram-lhe com doçura:

 

— Vai, meu bem.

 

Com repugnância pela obra de misericórdia que ia praticar, ele aproximou-se da gaiola. O canário nem sequer abriu o olho. Jazia a um canto, arrepiado, morto-vivo. É, esse está mesmo na última lona, e dói ver a lenta agonia de um ser tão gracioso, que viveu para cantar.

 

— Primeiro me tragam um vidro de éter e algodão. Assim ele não sentirá o horror da coisa.

 

Embebeu de éter a bolinha de algodão, tirou o canário para fora com infinita delicadeza, aconchegou-o na palma da mão esquerda e, olhando para outro lado, aplicou-lhe a bolinha no bico. Sempre sem olhar para a vítima, deu-lhe uma torcida rápida e leve, com dois dedos no pescoço.

 

E saiu para a rua, pequenino por dentro, angustiado, achando a condição humana uma droga. As pessoas da casa não quiseram aproximar-se do cadáver. Coube à cozinheira recolher a gaiola, para que sua vista não despertasse saudade e remorso em ninguém. Não havendo jardim para sepultar o corpo, depositou-o na lata de lixo.

 

Chegou a hora de jantar, mas quem é que tinha fome naquela casa enlutada? O sacrificador, esse ficara rodando por aí, e seu desejo seria não voltar para casa nem para dentro de si mesmo.

 

No dia seguinte, pela manhã, a cozinheira foi ajeitar a lata de lixo para o caminhão, e recebeu uma bicada voraz no dedo.

 

— Ui!

 

Não é que o canário tinha ressuscitado, perdão, reluzia vivinho da silva, com uma fome danada?

 

— Ele estava precisando mesmo era de éter — concluiu o estrangulador, que se sentiu ressuscitar, por sua vez.

 

ANDRADE, C. D. Cadeira de Balanço. Rio de Janeiro: José Olympio, 1966.

 

O trecho do Texto I “E saiu para a rua, pequenino por dentro, angustiado, achando a condição humana uma droga.” sugere que o rapaz

  1. vivia pelas ruas.
  2. fazia uso de drogas.
  3. tinha baixa estatura.
  4. odiava a raça humana.
  5. era uma pessoa sensível.
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Gabarito

Errado

Comentário do professor

O trecho "E saiu para a rua, pequenino por dentro, angustiado, achando a condição humana uma droga." traduz, em poucas palavras, o estado emocional do jovem após o ato.

Ele age com delicadeza (pede éter, segura o canário com cuidado) e, mesmo assim, sente repulsa e remorso: estar "pequenino por dentro" e "angustiado" são imagens de quem se comove profundamente.

Além disso, qualificar a condição humana como "uma droga" revela desencanto moral, não frieza; é juízo emotivo de quem sofre por ter causado dor, ainda que com intenção misericordiosa.

Por isso, a conclusão de que ele era uma pessoa sensível é a que melhor se impõe: demonstra empatia, consciência ética e sofrimento diante do sofrimento alheio.

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