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Questão FC243958

Texto de Clarice Lispector. Um amigo meu, médico, assegurou-me que desde o berço a criança sente o ambiente, a criança quer: nela o ser humano, no berço mesmo, já começou. Tenho ce

Ortografia

IDECAN · 2024

Texto de Clarice Lispector.

 

Um amigo meu, médico, assegurou-me que desde o berço a criança sente o ambiente, a criança quer: nela o ser humano, no berço mesmo, já começou.

 

Tenho certeza de que no berço a minha primeira vontade foi a de pertencer. Por motivos que aqui não importam, eu de algum modo devia estar sentindo que não pertencia a nada e a ninguém. Nasci de graça.

 

Se no berço experimentei esta fome humana, ela continua a me acompanhar pela vida afora, como se fosse um destino. A ponto de meu coração se contrair de inveja e desejo quando vejo uma freira: ela pertence a Deus.

 

Exatamente porque é tão forte em mim a fome de me dar a algo ou a alguém, é que me tornei bastante arisca: tenho medo de revelar de quanto preciso e de como sou pobre. Sou, sim. Muito pobre. Só tenho um corpo e uma alma. E preciso de mais do que isso.

 

Com o tempo, sobretudo os últimos anos, perdi o jeito de ser gente. Não sei mais como se é. E uma espécie toda nova de “solidão de não pertencer” começou a me invadir como heras num muro.

 

Se meu desejo mais antigo é o de pertencer, por que então nunca fiz parte de clubes ou de associações? Porque não é isso que eu chamo de pertencer. O que eu queria, e não posso, é por exemplo que tudo o que me viesse de bom de dentro de mim eu pudesse dar àquilo que eu pertenço. Mesmo minhas alegrias, como são solitárias às vezes. E uma alegria solitária pode se tornar patética.

 

É como ficar com um presente todo embrulhado em papel enfeitado de presente nas mãos - e não ter a quem dizer: tome, é seu, abra-o! Não querendo me ver em situações patéticas e, por uma espécie de contenção, evitando o tom de tragédia, raramente embrulho com papel de presente os meus sentimentos.

 

Pertencer não vem apenas de ser fraca e precisar unir-se a algo ou a alguém mais forte. Muitas vezes a vontade intensa de pertencer vem em mim de minha própria força - eu quero pertencer para que minha força não seja inútil e fortifique uma pessoa ou uma coisa.

 

Quase consigo me visualizar no berço, quase consigo reproduzir em mim a vaga e no entanto premente sensação de precisar pertencer. Por motivos que nem minha mãe nem meu pai podiam controlar, eu nasci e fiquei apenas: nascida.

 

A vida me fez de vez em quando pertencer, como se fosse para me dar a medida do que eu perco não pertencendo. E então eu soube: pertencer é viver.

 

Fonte: https://www.culturagenial.com/clarice-lispector-textos-poeticos-comentados/.

 

Considerando as regras de acentuação da Língua Portuguesa, assinale a afirmação correta.

  1. Acentua-se as vogais “i” e “u” tônicas, ditongos, quando estão com outra vogal anterior (ex: saída, faísca, saúde).
  2. Toda palavra oxítona é acentuada (ex: Paraná, parabéns, você).
  3. As palavras récorde e filântropo são acentuadas por causa da prosódia.
  4. Os ditongos abertos em palavra paroxítona são acentuados (ex: platéia, bóia, anéis).
  5. Acentua-se a vogal da sílaba tônica de palavras paroxítonas terminadas em ditongos orais, seguidas ou não pela letra “S” (ex: vácuo, insônia e férteis).
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Gabarito

Errado

Comentário do professor

A alternativa correta descreve a regra de acentuação aplicada às paroxítonas: acentua-se a vogal da sílaba tônica quando a palavra termina em ditongo oral, seguido ou não de "s".

Um ditongo oral é a união, numa mesma sílaba, de uma vogal e uma semivogal (por exemplo, em sílabas como "sá‑bio" ou "tênues").

Assim, palavras como vácuo, insônia e férteis recebem acento para indicar qual é a vogal tônica. Para aplicar a regra: identifique a sílaba tônica; se a palavra for paroxítona e terminar em ditongo (com ou sem "s"), coloque o acento na vogal tônica.

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