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Questão FC244133

TEXTO PARA A QUESTÃO. Caso pluvioso (Carlos Drummond de Andrade. Viola de Bolso, 1955) A chuva me irritava. Até que um dia descobri que Maria é que chovia. A chuva era Maria. E cad

Morfologia

IDECAN · 2019

TEXTO PARA A QUESTÃO.

 

Caso pluvioso (Carlos Drummond de Andrade. Viola de Bolso, 1955)

 

A chuva me irritava. Até que um dia

descobri que Maria é que chovia.

A chuva era Maria. E cada pingo

de Maria ensopava o meu domingo.

 

E meus ossos molhando, me deixava

como terra que a chuva lavra e lava.

Eu era todo barro, sem verdura...

Maria, chuvosíssima criatura!

 

Ela chovia em mim, em cada gesto,

pensamento, desejo, sono, e o resto.

Era chuva fininha e chuva grossa,

matinal e noturna, ativa... Nossa!

 

Não me chovas, Maria, mais que o justo

chuvisco de um momento, apenas susto.

Não me inundes de teu líquido plasma,

não sejas tão aquático fantasma!

 

Eu lhe dizia em vão - pois que Maria

quanto mais eu rogava, mais chovia.

E chuveirando atroz em meu caminho,

o deixava banhado em triste vinho,

 

que não aquece, pois água de chuva

mosto é de cinza, não de boa uva.

Chuvadeira Maria, chuvadonha,

chuvinhenta, chuvil, pluvimedonha!

 

Eu lhe gritava: Pára! e ela chovendo,

poças d'água gelada ia tecendo.

Choveu tanto Maria em minha casa

que a correnteza forte criou asa

 

e um rio se formou, ou mar, não sei,

sei apenas que nele me afundei.

E quanto mais as ondas me levavam,

as fontes de Maria mais chuvavam,

 

de sorte que com pouco, e sem recurso,

as coisas se lançaram no seu curso,

e eis o mundo molhado e sovertido

sob aquele sinistro e atro chuvido.

 

Os seres mais estranhos se juntando

na mesma aquosa pasta iam clamando

contra essa chuva estúpida e mortal

catarata (jamais houve outra igual).

 

Anti-petendam cânticos se ouviram.

Que nada! As cordas d'água mais deliram,

e Maria, torneira desatada,

mais se dilata em sua chuvarada.

 

Os navios soçobram. Continentes

já submergem com todos os viventes,

e Maria chovendo. Eis que a essa altura,

delida e fluida a humana enfibratura,

 

e a terra não sofrendo tal chuvência,

comoveu-se a Divina Providência,

e Deus, piedoso e enérgico, bradou:

Não chove mais, Maria! - e ela parou.

 

Chuvadeira Maria, chuvadonha,

chuvinhenta, chuvil, pluvimedonha! 

 

No segmento acima, as palavras sublinhadas são cognatas, ou seja, originam-se a partir de uma mesma raiz. A palavra que apresenta um processo de formação distinto dos demais é

  1. chuvadeira
  2. chuvadonha
  3. chuvinhenta
  4. chuvil
  5. pluvimedonha
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Gabarito

Errado

Comentário do professor

A palavra pluvimedonha é formada por processo de composição, isto é, pela junção de dois radicais num único lexema.

Morfofoneticamente podemos segmentá‑la como pluvi‑ + medonha (ou pluv‑ + med‑ + onha), em que pluv/ pluvi remete à ideia de chuva (lat. pluvia) e med/medonh‑ carrega a ideia de temor/assombro.

O resultado é um neologismo composicional, motivado por recursos poéticos: dois elementos com autonomia semântica unem‑se para formar um sentido composto — “chuva assustadora/terrível”.

Importa notar que um dos componentes oferece formação própria (medonha), mas o mecanismo responsável pela criação do composto é a junção de raízes: portanto, trata‑se de composição.

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