Questão FC244167
Tomando-se como referência os primeiros anos do século 19: como seria possível comparar países em que a estrutura social era tradicional e a população em grande parte indígena ou d
Morfologia
IDECAN · 2024
Texto para a questão.
AS INSTITUIÇÕES E O PRÊMIO NOBEL
Acemoglu, Robinson e Johnson ganharam o Prêmio Nobel de Economia neste ano. Em 2001, eles explicaram o atraso dos países em relação aos países ricos com a tese de que os países que se atrasaram não foram colônias de povoamento como foram os Estados Unidos ou a Austrália. Estavam em parte corretos, porque essa foi a tese clássica de Caio Prado Júnior. Não discutirei aqui esse trabalho.
Em 2005, eles "descobriram" que o atraso dos países periféricos em relação aos países centrais poderia ser explicado pelo fato de suas instituições não terem garantido suficientemente a propriedade e os contratos e, assim, haverem desestimulado os empresários a investir. Estavam, neste caso, errados.
Afirmar a importância de boas instituições para o desenvolvimento é a mesma coisa que dizer que a água é importante. É óbvio que as instituições – as normas que organizam a vida social – são fundamentais.
A questão real não é essa, mas sim se faz sentido usar as instituições para explicar o atraso em vez de considerar as estruturas sociais, como eles fizeram sem saber no trabalho anterior. Elas nos dizem, no caso do atraso, se o país teve uma colonização de povoamento ou de exploração mercantil, como nos países latino-americanos.
Nos primeiros, formou-se logo uma classe média e a evolução para o capitalismo foi quase natural, enquanto nos países periféricos o caráter tradicional da sociedade e a condição colonial ou dependente se mantiveram por muitod tempo; no caso da dependência, até agora.
Nos dizem qual foi o peso do escravismo em cada sociedade.
O que os novos nóbeis de Economia – ou a escola novo-institucionalista à qual pertencem – subestimam é que as instituições são endógenas. Elas dependem das estruturas sociais; elas mudam conforme mudam essas estruturas.
A partir do livro de 1990 de Douglas North, "Instituições, Mudança Institucional e Desempenho Econômico", o institucionalismo se transformou em uma teoria de desenvolvimento. Surgiu, não por acaso, em torno de 1980.
Foi nesse momento que os Estados Unidos e os demais países ricos fizeram a "virada neoliberal" e perceberam que as instituições eram uma forma muito maisb e cômoda de explicar o atraso da periferia. Dessa maneira, a nova escola livrava-se não apenas de questões estruturais maisc difíceis de mudar, mas também do imperialismo ao qual os países periféricos foram e continuam sendo submetidos.
A tese novo-institucionalista da propriedade e dos contratos parece verdadeira à primeira vista, mas realmente não faz sentido.
Tomando-se como referência os primeiros anos do século 19: como seria possível comparar países em que a estrutura social era tradicional e a população em grande parte indígena ou descendente de escravos com a estrutura social de países como os Estados Unidos ou a Austrália?
Dar importância às instituições sem considerar as estruturas tornou mais fácil para o centro neoliberal definir o que os países periféricos deveriam fazer. Bastaria fazer as reformas institucionais – privatizar, desregular, liberalizar – e tudo seria resolvido.
Há ainda a considerar que em países de renda média é comum haver instituições mais modernas e adequadas do que nos países em desenvolvimento. Nós, por exemplo, temos a regulamentação dos medicamentos genéricos que poucos países ricos têm. Na Grã-Bretanha, a obtenção de documentos é mais demorada do que no Brasil. Nos Estados Unidos, o uso de armas de fogo é permitido senão incentivado.
Mudar as instituições é fácil, mudar as estruturas é mais difícil, e o país se livrar do imperialismo é mais difícil ainda. Muitoa mais fácil é realizar as reformas neoliberais, principalmente a completa liberalização comercial e financeira. O centro não quer o desenvolvimento da periferia; ele não quer que esta produza bens com mão de obra barata para com ele concorrer e quer manter a troca desigual entre manufaturas e commodities.
Sim, as instituições, assim como a água, são importantes. É impossível viver sem elas, mas assim como por trás da água estão as nascentes, por trás das instituições estão as estruturas econômicas e sociais.
Luiz Carlos Bresser Pereira. Disponível em:
https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2024/11/as-instituicoes-e-o-premio-nobel.shtml. Acesso em: 6 nov. 2024.
Assinale a alternativa em que a palavra indicada apresente papel adjetivo.
- muito
- mais
- mais
- muito
- muito
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Gabarito
D
Comentário do professor
"Muito", no trecho "por muito tempo", atua como termo que quantifica o substantivo "tempo". Quando muito implica diretamente um substantivo, sua função é adjetiva (mais precisamente: determinante ou quantificador adjetivo), pois modifica e especifica a extensão do substantivo.
Um teste simples: se a palavra se liga ao substantivo e pode ser substituída por outro quantificador (por exemplo, "por bastante tempo"), conserva valor adjetivo. Além disso, como adjetivo pode estabelecer concordância em contextos em que isso seja exigido ("muita calma"), ao passo que, quando modifica um adjetivo ou verbo, assume valor de advérbio ("muito difícil", "muito cedo").
Portanto, em "por muito tempo", muito qualifica o substantivo e tem função adjetiva.
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