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Questão FC244177

Mesmo mais brandamente, a divergência entre o pensar e o agir gera tristeza. Algumas tradições filosóficas e religiosas ensinam que a felicidade reside no presente; dessa forma, se

Morfologia

IDECAN · 2022

Texto

 

A divagação da mente, o fluxo dos erros e a criatividade

 

Nossa mente vagueia entre passado e futuro, imaginando o que poderia ter sido, antecipando acontecimentos que muito provavelmente nunca ocorrerão, além de elaborar fantasiosas narrações. O padrão mental é criar pensamentos aleatórios, espontaneamente, à parte do que fazemos e das circunstâncias presentes.

 

Alguns exemplos são típicos em doenças mentais, como as ruminações melancólicas, características da depressão; as obsessões, identidade do transtorno obsessivo-compulsivo; o sonhar acordado [A], comum aos que têm transtorno de déficit de atenção [B]. Em pessoas livres dessas enfermidades, as consequências dos raciocínios intrusos podem ser mínimas, nem perturbam o propósito. Ou não...

 

Às vezes, flagramos nossa mente distante, por um tempo surpreendentemente longo. Resignados ou inconformados, não evitaremos essa repetição. A procrastinação e a impulsividade, causas frequentes de frustração e desgosto, são consequências desta falha cognitiva, a incompetência em conectar o pensamento à ação contemporânea. Um fracasso do autocontrole.

 

Mesmo mais brandamente, a divergência entre o pensar e o agir gera tristeza. Algumas tradições filosóficas e religiosas ensinam que a felicidade reside no presente; dessa forma, seus adeptos são incentivados a reconhecer as divagações mentais e concentrarem-se no aqui e agora. Essas práticas sugerem que uma mente errante é uma mente infeliz. Mas esse princípio é verdadeiro e pode ser testado objetivamente?

 

Questões complicadas como essas são um convite à divagação. Felizmente, alguns curiosos e persistentes foram à obra, especificamente em 2010 [C], na Faculdade de Psicologia da Universidade Harvard. Esses insistentes, ou melhor, pesquisadores, enviaram perguntas, várias vezes e ao acaso, aos celulares de 2.250 [D] voluntários. O mote era descobrir o que faziam, se o que estavam pensando era pertinente ao momento e como se sentiam. As conclusões obtidas desse clássico estudo: os participantes estavam menos felizes quando a mente vagueava, não importa se a atividade era agradável ou desagradável, tampouco se o pensamento transcorria sobre tópicos prazerosos ou não. A divagação da mente era a causa da tristeza, e não sua mera consequência.

 

Então, a chave do sucesso e da felicidade é o controle voluntário da mente, o fim dos devaneios? Desiludo o meu esperançoso leitor, não é possível alcançar esse objetivo.

 

Os pensamentos errantes ocupam muito do nosso tempo, por serem um aspecto normal da condição humana, um notável efeito da evolução que nos possibilita aprender, raciocinar, planejar e formatar a metacognição. A viagem mental de eventos passados às possibilidades futuras nos ajuda a integrar experiências e a antecipar consequências. Sem falar que essas divagações ajudam a enfrentar a chatice de tarefas monótonas, já que adicionam alguns intervalos reparadores.

 

A experiência humana da consciência é fluida, raramente restringe-se a um único tópico por um período extenso, sem desvios. Sua natureza é dinâmica. Alguns raciocínios que surgem durante o divagar da mente tendem a orbitar algumas pendências pregressas e podem trazer momentos "Eureca", que talvez não seriam alcançados durante a exaustiva busca por uma solução.

 

Impasses mentais acontecem, e por vezes a concentração humana se desvia do obstáculo. A razão, então, automaticamente se envolve com outra atividade, cuidando de temas aleatórios. O problema fica incubado, submerso a nossa consciência. O que acontece durante o período de incubação é um mistério, não sabemos aquilo que se passa em subsolo cerebral. Mas em meio à diversidade de pensamentos erráticos, uma solução pode ser encontrada.

 

Imerso em pensamentos e sentimentos, alguém pode perder-se em devaneios. Porém, as simulações mentais podem revelar aspectos da realidade. A diversidade dos pensamentos fortuitos, e não o foco em uma ideia repetitiva, é uma determinante da criatividade.

 

(Luciano Magalhães Melo. https://www1.folha.uol.com.br/colunas/luciano-melo/2022/06/a-divagacao-da-mente-o-fluxo-dos-erros-e-a-criatividade.shtml. 7.jun.2022, com adaptações)

 

Assinale a alternativa em que a palavra indicada exerça papel adjetivo.

  1. acordado
  2. atenção
  3. 2010
  4. 2.250
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Gabarito

D

Comentário do professor

Na locução "aos celulares de 2.250 voluntários", o termo 2.250 acompanha diretamente o substantivo voluntários e indica sua quantidade.


Quando um numeral acompanha e determina um substantivo, exerce a função de adjetivo (mais especificamente: numeral adjetivo), pois modifica e qualificaa informação sobre o substantivo, atribuindo-lhe valor numérico.


Portanto, 2.250 tem aqui o papel adjetivo: não está substituindo o substantivo, mas qualificando-o, especificando quantos voluntários participaram.

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