FC ConcursosFC Concursos

Questão FC244200

Diva. Visitando o negociante, vi ao entrar na sala uma linda moça, que não reconheci. Estava só. De pé no vão da janela cheia de luz, meio reclinada ao peitoril, tinha na mão um li

Morfologia

IDECAN · 2024

Diva.

 

Visitando o negociante, vi ao entrar na sala uma linda moça, que não reconheci.

 

Estava só. De pé no vão da janela cheia de luz, meio reclinada ao peitoril, tinha na mão um livro aberto e lia com atenção.

 

Não é possível idear nada mais puro e harmonioso do que o perfil dessa estátua de moça. Era alta e esbelta. Tinha um desses talhes flexíveis e lançados, que são hastes de lírio para o rosto gentil; porém, na mesma delicadeza do porte, esculpiam-se os contornos mais graciosos com firme nitidez das linhas e uma deliciosa suavidade nos relevos.

 

Não era alva, também não era morena. Tinha sua tez a cor das pétalas da magnólia, quando vão desfalecendo ao beijo do sol. Mimosa cor de mulher, se a aveluda a pubescência juvenil, e a luz coa pelo fino tecido, e um sangue puro a escumilha de róseo matiz. A dela era assim.

 

Uma altivez de rainha cingia-lhe a fronte, como diadema cintilando na cabeça de um anjo. Havia em toda a sua pessoa um quer que fosse de sublime e excelso que a abstraía da terra. Contemplando-a naquele instante de enlevo, dir-se-ia que ela se preparava para sua celeste ascensãoC).

 

Às vezes, porém, a impressão da leitura turbava a serena elação da sua figura, e despertava nela a mulher. Então desferia alma por todos os poros. Os grandes olhos, velutados de negro, rasgavam-se para dardejar as centelhas elétricas do nervoso organismo. Nesses momentos toda ela era somente coração, porque toda ela palpitava e sentia.

 

Eu tinha parado na porta, e admirava: afinal adiantei-me para cumprimentá-laB). Ouvindo o rumor dos meus passos, ela voltou-se.

 

- Minha senhora!... Murmurei inclinando-me.

 

As cores fugiram-lhe. Ela vestiu-se como de uma túnica lívida e glacial: logo depois sua fisionomia anuviou-se, e eu vi lampejos fuzilarem naquela densidade de uma cólera súbita.

 

Fulminou-me com um olhar augusto e desapareceu.

 

Acreditas, Paulo, que essa moça que te descrevi fosse Emília, a menina feia e desgraciosa que eu deixara dois anos antes? Que sublime trabalho de florescência animada não realizara a natureza nessa mulher!

 

Emília teria então dezessete anos. Sentia-se, olhando-a, a influência misteriosa que um espírito superior tinha exercido na revolução operada em sua pessoa. O trajo, ainda nimiamente avaro dos encantos que ocultava, era de um molde severo; mas havia, no gracioso da forma e na combinação do enfeite, uns toques artísticos, que se revelavam também no basto trançado do luxuoso cabelo negroE).

 

Voltei impressionado por essa visão de sala em pleno dia.

 

Se a transformação de Emília produzira em mim uma admiração grande, maior foi a humilhação que sofri com o seu desdém. Já não era uma menina; estava moça, e não me devia só a cortesia a que tem direito o homem delicado, devia-me gratidão.

 

- Talvez ignore! Disse eu comigo.

 

Nos dias que se seguiram, surgiu alguma vez em meu espírito aquela imagem de moçaA); mas essa lembrança me incomodava.

 

Uma tarde encontrei-me com o irmão:

 

- Ia à tua casa! Disse-me Geraldo.

 

- Pois vamos.

 

- Não. Já que te encontrei poupa-me essa maçada. Minha tia manda-te dizer que amanhã toma-se chá em sua casa. Julinha faz anos.

 

- Ah! D. Matilde?...

 

- Sim. Adeus.

 

- Espera.

 

- Não posso. Ainda vou à chácara, e tenho de voltar para o teatro.

 

D. Matilde é casada com um irmão de Duarte. Seu marido vive constantemente na fazenda, trabalhando para tirar dela os avultados rendimentos necessários ao luxo que sua família ostentaD) na corte. Ainda moça, bonita e muito elegante, ela é perdida pelo cortejo e galanteio de sala. Nunca a honra conjugal sucumbiu a essa fascinação, mas a casta dignidade da esposa foi sacrificada sem reserva.

 

Disponível em: https://objdigital.bn.br/Acervo_Digital/Livros_eletronicos/diva.pdf

 

Assinale a alternativa que contém, no mesmo período, respectivamente, verbo no futuro do pretérito do indicativo e pretérito imperfeito do indicativo.

  1. Nos dias que se seguiram, surgiu alguma vez em meu espírito aquela imagem de moça.
  2. Eu tinha parado na porta, e admirava: afinal adiantei-me para cumprimentá-la.
  3. Contemplando-a naquele instante de enlevo, dir-se-ia que ela se preparava para sua celeste ascensão.
  4. Seu marido vive constantemente na fazenda, trabalhando para tirar dela os avultados rendimentos necessários ao luxo que sua família ostenta.
  5. Mas havia, no gracioso da forma e na combinação do enfeite, uns toques artísticos, que se revelavam também no basto trançado do luxuoso cabelo negro.
Mostrar resposta e comentário

Gabarito

Certo

Comentário do professor

Na oração Contemplando-a naquele instante de enlevo, dir-se-ia que ela se preparava para sua celeste ascensão, o verbo dir‑se‑ia correspondente a diria‑se está no futuro do pretérito do indicativo. Morfologicamente apresenta a desinência -RIA e sintaticamente transmite ideia de hipótese ou conjectura (“dir‑se‑ia” = “poder‑se‑ia dizer/seria possível dizer”).

Já preparava está no pretérito imperfeito do indicativo (desinência típica -AVA em verbos em -ar) e indica uma ação passada em curso ou não totalmente concluída — aqui, o estado progressivo da personagem que se preparava para a “ascensão”.

Observação sintática: a forma dir‑se‑ia exibe a colocação pronominal conhecida como mesóclise, comum com verbos no futuro/condicional em contextos formais.

Conteúdo do catálogo FC Concursos · Atualizado em

Continue aprendendo