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Questão FC244241

Texto 19 de maio. Belém. Durante a noite o Pedro I portou em Salinas pra emprestar um tapejara que nos guiasse através da foz traiçoeira do Amazonas e quando nos levantamos no dia

Morfologia

IDECAN · 2022

Texto

 

19 de maio. Belém. Durante a noite o Pedro I portou em Salinas pra emprestar um tapejara que nos guiasse através da foz traiçoeira do Amazonas e quando nos levantamos no dia de hoje bem cedinho já estávamos nela. Que posso falar dessa foz tão literária e que comove tanto quando assuntada no mapa?... A imensidão das águas é tão vasta, as ilhas imensas por demais ficam tão no longe fraco que a gente não encontra nada que encante. A foz do Amazonas é uma dessas grandezas tão grandiosas que ultrapassam as percepções fisiológicas do homem. Nós só podemos monumentalizá-las na inteligência. O que a retina bota na consciência é apenas um mundo de águas sujas e um matinho sempre igual no longe mal percebido das ilhas. O Amazonas prova decisivamente que a monotonia é um dos elementos mais grandiosos do sublime. É incontestável que Dante e o Amazonas são igualmente monótonos. Pra gente gozar um bocado e perceber a variedade que tem nessas monotonias do sublime carece limitar em molduras mirins a sensação. Então acha uma lindeza os barcos veleiros coloridos e acha cotuba a morte dos pretendentes, se prende ao horizonte plantado de árvores que a refração apara do firme das ilhas e ao livro de Jó. A foz do Amazonas é tão ingente que blefa a grandeza. Wordsworth, o quarteirão dos cinemas no Rio, “I Juca-Pirama ” são muito mais grandiosos.

 

Mas quando Belém principia diminuindo a vista larga a boniteza surge outra vez. Chegamos lá antes da chuva e o calor era tanto que vinha dos mercados um cheiro de carne-seca. Os barcos veleiros sentados no cais do Ver-o-peso sacudiam as velas roseadas azuis negras se abanando com lerdeza. Nos esperavam oficialmente no cais dois automóveis da Presidência prontinhos pra batalha de flores. Pra cada uma das companheiras do poeta um buquê famoso, fomos. Então passamos revista a todos os desperdícios da chegada. Só de noite nos reunimos pra janta excelente. Belém andara indagando dos nossos gostos e mantinha na esquina de boreste do hotel, um cinema. Fomos ver William Fairbanks em Não percas tempo, filme horrível. A noite dormiu feliz.

 

ANDRADE, Mário de. O turista aprendiz / Mário de Andrade ; edição de texto apurado, anotada e acrescida de documentos por Telê Ancona Lopez, Tatiana Longo Figueiredo ; Leandro Raniero Fernandes, colaborador. – Brasília, DF: Iphan, 2015. P. 68 – 70.

 

Observe o seguinte texto:

 

‘Durante a noite o Pedro I portou em Salinas pra emprestar um tapejara que nos guiasse através da foz traiçoeira do Amazonas e quando nos levantamos no dia de hoje bem cedinho já estávamos nela.’

 

Após a leitura e análise do trecho, pode-se afirmar que:

  1. ‘Guiasse’ está empregado no sentido de aconselhar, logo é bitransitivo.
  2. ‘Levantamos’ está empregado no sentido de pôr-se de pé, logo é verbo transitivo indireto.
  3. ‘Portou’ está empregado no sentido de chegar num lugar específico, logo é verbo intransitivo.
  4. ‘Emprestar’ está empregado no sentido de ceder algo a alguém, logo é verbo transitivo indireto.
  5. ‘Estávamos’ está empregado no sentido de expressar estado temporário, logo é verbo intransitivo.
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Gabarito

Certo

Comentário do professor

No trecho, portou é usado com sentido náutico de chegar/atracar a um porto. Trata‑se de um uso lexical que indica deslocamento/alcance de um lugar, não de transferência de objeto.

Sintaticamente, o Pedro I é o sujeito e portou é o núcleo verbal sem complemento direto; em Salinas funciona como adjunto adverbial de lugar. Não há objeto que complete o sentido do verbo.

A expressão pra emprestar um tapejara é uma oração reduzida de infinitivo com valor final (adjunto adverbial de finalidade) — modifica a circunstância da chegada, sem transformar portou em transitivo.

Portanto, portou está empregado no sentido de chegar/atracar e é classificado como verbo intransitivo.

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