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Questão FC244253

Texto para responder a questão. CAPÍTULO XI / O MENINO É PAI DO HOMEM Cresci; e nisso é que a família não interveio; cresci naturalmente, como crescem as magnólias e os gatos. Talv

Morfologia

IDECAN · 2019

Texto para responder a questão.

 

CAPÍTULO XI / O MENINO É PAI DO HOMEM

 

Cresci; e nisso é que a família não interveio; cresci naturalmente, como crescem as magnólias e os gatos. Talvez os gatos são menos matreiros, e com certeza, as magnólias são menos inquietas do que eu era na minha infância. Um poeta dizia que o menino é pai do homem. Se isto é verdade, vejamos alguns lineamentos do menino.

 

Desde os cinco anos merecera eu a alcunha de “menino diabo”; e verdadeiramente não era outra coisa; fui dos mais malignos do meu tempo, arguto, indiscreto, traquinas e voluntarioso. Por exemplo, um dia quebrei a cabeça de uma escrava, porque me negara uma colher do doce de coco que estava fazendo, e, não contente com o malefício, deitei um punhado de cinza ao tacho, e, não satisfeito da travessura, fui dizer à minha mãe que a escrava é que estragara o doce “por pirraça”; e eu tinha apenas seis anos. Prudêncio, um moleque de casa, era o meu cavalo de todos os dias; punha as mãos no chão, recebia um cordel nos queixos, à guisa de freio, eu trepava-lhe ao dorso, com uma varinha na mão, fustigava-o, dava mil voltas a um e outro lado, e ele obedecia, — algumas vezes gemendo, — mas obedecia sem dizer palavra, ou, quando muito, um — “ai, nhonhô!” — ao que eu retorquia: — “Cala a boca, besta!” — Esconder os chapéus das visitas, deitar rabos de papel a pessoas graves, puxar pelo rabicho das cabeleiras, dar beliscões nos braços das matronas, e outras muitas façanhas deste jaez, eram mostras de um gênio indócil, mas devo crer que eram também expressões de um espírito robusto, porque meu pai tinha-me em grande admiração; e se às vezes me repreendia, à vista de gente, fazia-o por simples formalidade: em particular dava-me beijos.

 

(Joaquim Maria Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas)

 

No excerto “... um dia quebrei a cabeça de uma escrava, porque me negara uma colher do doce de coco que estava fazendo...”, sob a ótica da coesão de natureza sequencial, entende-se que houve a adequada correlação, na sentença linguística, entre os tempos verbais

  1. presente do indicativo e presente do subjuntivo.
  2. pretérito perfeito do indicativo e pretérito perfeito do indicativo.
  3. pretérito perfeito do subjuntivo e pretérito imperfeito do indicativo.
  4. pretérito perfeito do indicativo e pretérito mais-que-perfeito do indicativo.
  5. pretérito perfeito do subjuntivo e pretérito mais-que-perfeito do subjuntivo.
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Gabarito

D

Comentário do professor

Alternativa D está correta porque as duas formas verbais do trecho expressam ações passadas com relação temporal distinta. Em "um dia quebrei a cabeça de uma escrava", o verbo quebrei é pretérito perfeito do indicativo, indicando ação concluída em momento definido no passado (eu quebrei, tu quebraste, ele quebrou...).

Em "porque me negara uma colher do doce de coco", o verbo negara aparece na forma simples do pretérito mais-que-perfeito do indicativo, que marca uma ação anterior àquela já passada (eu negara, tu negaras, ele negara, nós negáramos, vós negáreis, eles negaram).

A coesão sequencial se dá porque o mais-que-perfeito estabelece anterioridade em relação ao pretérito perfeito: primeiro houve a negação da colher e, posteriormente, a reação (quebra da cabeça). Observa-se também caráter literário na escolha da forma simples do mais-que-perfeito, menos comum na fala contemporânea.

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