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Questão FC244394

TEXTO PARA A QUESTÃO. Caso pluvioso (Carlos Drummond de Andrade. Viola de Bolso, 1955) A chuva me irritava. Até que um dia descobri que Maria é que chovia. A chuva era Maria. E cad

Morfologia

IDECAN · 2019

TEXTO PARA A QUESTÃO.

 

Caso pluvioso (Carlos Drummond de Andrade. Viola de Bolso, 1955)

 

A chuva me irritava. Até que um dia

descobri que Maria é que chovia.

A chuva era Maria. E cada pingo

de Maria ensopava o meu domingo.

 

E meus ossos molhando, me deixava

como terra que a chuva lavra e lava.

Eu era todo barro, sem verdura...

Maria, chuvosíssima criatura!

 

Ela chovia em mim, em cada gesto,

pensamento, desejo, sono, e o resto.

Era chuva fininha e chuva grossa,

matinal e noturna, ativa... Nossa!

 

Não me chovas, Maria, mais que o justo

chuvisco de um momento, apenas susto.

Não me inundes de teu líquido plasma,

não sejas tão aquático fantasma!

 

Eu lhe dizia em vão - pois que Maria

quanto mais eu rogava, mais chovia.

E chuveirando atroz em meu caminho,

o deixava banhado em triste vinho,

 

que não aquece, pois água de chuva

mosto é de cinza, não de boa uva.

Chuvadeira Maria, chuvadonha,

chuvinhenta, chuvil, pluvimedonha!

 

Eu lhe gritava: Pára! e ela chovendo,

poças d'água gelada ia tecendo.

Choveu tanto Maria em minha casa

que a correnteza forte criou asa

 

e um rio se formou, ou mar, não sei,

sei apenas que nele me afundei.

E quanto mais as ondas me levavam,

as fontes de Maria mais chuvavam,

 

de sorte que com pouco, e sem recurso,

as coisas se lançaram no seu curso,

e eis o mundo molhado e sovertido

sob aquele sinistro e atro chuvido.

 

Os seres mais estranhos se juntando

na mesma aquosa pasta iam clamando

contra essa chuva estúpida e mortal

catarata (jamais houve outra igual).

 

Anti-petendam cânticos se ouviram.

Que nada! As cordas d'água mais deliram,

e Maria, torneira desatada,

mais se dilata em sua chuvarada.

 

Os navios soçobram. Continentes

já submergem com todos os viventes,

e Maria chovendo. Eis que a essa altura,

delida e fluida a humana enfibratura,

 

e a terra não sofrendo tal chuvência,

comoveu-se a Divina Providência,

e Deus, piedoso e enérgico, bradou:

Não chove mais, Maria! - e ela parou.

 

Assinale a alternativa que apresenta o segmento do texto em que a conjunção e apresenta valor aproximado de adversidade (e não de adição), em função do contexto em que essa conjunção é empregada.

  1. “A chuva era Maria. E cada pingo de Maria ensopava o meu domingo.”
  2. “Eu lhe gritava: Pára! e ela chovendo, poças d’água gelada ia tecendo.”
  3. “Choveu tanto Maria em minha casa que a correnteza forte criou asa e um rio se formou, ou mar, não sei, sei apenas que nele me afundei.”
  4. “E quanto mais as ondas me levavam, as fontes de Maria mais chuvavam” 
  5. “Anti-petendam cânticos se ouviram. Que nada! As cordas d’água mais deliram, e Maria, torneira desatada, mais se dilata em sua chuvarada.”
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Gabarito

B

Comentário do professor

“Eu lhe gritava: Pára! e ela chovendo, poças d’água gelada ia tecendo.”

Nesta sequência, a conjunção e assume valor aproximado de adversidade: há contraste entre o pedido do eu‑lírico (“Pára!”) e a ação contínua de Maria (ela continua chovendo).

O sentido adversativo fica evidente se substituímos mentalmente por mas: “Eu lhe gritava: Pára! mas ela, chovendo, ia tecendo poças...” — o resultado é coerente e revela oposição entre expectativa e fato.

Portanto, embora e seja normalmente aditiva, aqui, pelo contexto (imperativo vs. persistência da chuva), funciona com valor adversativo implícito.

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