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Questão FC244745

Texto de Clarice Lispector. Um amigo meu, médico, assegurou-me que desde o berço a criança sente o ambiente, a criança quer: nela o ser humano, no berço mesmo, já começou. Tenho ce

Sintaxe

IDECAN · 2024

Texto de Clarice Lispector.

 

Um amigo meu, médico, assegurou-me que desde o berço a criança sente o ambiente, a criança quer: nela o ser humano, no berço mesmo, já começou.

 

Tenho certeza de que no berço a minha primeira vontade foi a de pertencer. Por motivos que aqui não importam, eu de algum modo devia estar sentindo que não pertencia a nada e a ninguém. Nasci de graça.

 

Se no berço experimentei esta fome humana, ela continua a me acompanhar pela vida afora, como se fosse um destino. A ponto de meu coração se contrair de inveja e desejo quando vejo uma freira: ela pertence a Deus.

 

Exatamente porque é tão forte em mim a fome de me dar a algo ou a alguém, é que me tornei bastante arisca: tenho medo de revelar de quanto preciso e de como sou pobre. Sou, sim. Muito pobre. Só tenho um corpo e uma alma. E preciso de mais do que isso.

 

Com o tempo, sobretudo os últimos anos, perdi o jeito de ser gente. Não sei mais como se é. E uma espécie toda nova de “solidão de não pertencer” começou a me invadir como heras num muro.

 

Se meu desejo mais antigo é o de pertencer, por que então nunca fiz parte de clubes ou de associações? Porque não é isso que eu chamo de pertencer. O que eu queria, e não posso, é por exemplo que tudo o que me viesse de bom de dentro de mim eu pudesse dar àquilo que eu pertenço. Mesmo minhas alegrias, como são solitárias às vezes. E uma alegria solitária pode se tornar patética.

 

É como ficar com um presente todo embrulhado em papel enfeitado de presente nas mãos - e não ter a quem dizer: tome, é seu, abra-o! Não querendo me ver em situações patéticas e, por uma espécie de contenção, evitando o tom de tragédia, raramente embrulho com papel de presente os meus sentimentos.

 

Pertencer não vem apenas de ser fraca e precisar unir-se a algo ou a alguém mais forte. Muitas vezes a vontade intensa de pertencer vem em mim de minha própria força - eu quero pertencer para que minha força não seja inútil e fortifique uma pessoa ou uma coisa.

 

Quase consigo me visualizar no berço, quase consigo reproduzir em mim a vaga e no entanto premente sensação de precisar pertencer. Por motivos que nem minha mãe nem meu pai podiam controlar, eu nasci e fiquei apenas: nascida.

 

A vida me fez de vez em quando pertencer, como se fosse para me dar a medida do que eu perco não pertencendo. E então eu soube: pertencer é viver.

 

Fonte: https://www.culturagenial.com/clarice-lispector-textos-poeticos-comentados/.

 

Considerando as regras das classes de palavras, analise a sentença “[...] o que me viesse de bom de dentro de mim eu pudesse dar [...]” e assinale a alternativa correta.

  1. A locução adverbial “pudesse dar” está conjugada na 1ª pessoa do singular do pretérito-mais-que perfeito composto do modo indicativo.
  2. Os termos “o”, “que” e “de” são classificados como conjunções integrantes dos termos da oração.
  3. O verbo “viesse” está conjugado na 1ª pessoa do singular do pretérito imperfeito do modo subjuntivo.
  4. O pronome átono “me” poderia ser posposto ao verbo “viesse-me” sem ferir a regra de colocação pronominal.
  5. Os termos “de bom”, “de dentro”, “de mim” são classificados como advérbios e na frase assumem a função de locução adverbial.
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Gabarito

Certo

Comentário do professor

Viesse apresenta a terminação -sse, marca morfológica típica do pretérito imperfeito do modo subjuntivo, utilizada para indicar hipótese, desejo ou possibilidade no passado/condicional.

Na conjugação do verbo vir, as formas são: eu viesse / tu viesses / ele viesse / nós viéssemos / vós viesseis / eles viessem. Observe que a forma viesse coincide formalmente em 1.ª e 3.ª pessoa do singular.

No enunciado “o que me viesse de bom…” a forma verbal integra uma estrutura hipotética/subjuntiva que se articula semanticamente com a pessoa da falante, justificando a leitura como 1.ª pessoa do singular do pretérito imperfeito do subjuntivo.

Assim, a identificação baseia‑se tanto na terminação morfológica quanto no efeito de sentido próprio do modo e tempo escolhidos.

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