FC ConcursosFC Concursos

Questão FC244752

Por que os animais nos fascinam mais do que as plantas?

Sintaxe

IDECAN · 2023

Língua Portuguesa

Texto para a questão seguinte.

Por que os animais nos fascinam mais do que as plantas?

A maioria de nós já teve esta experiência: fazer uma trilha e no caminho encontrar um mamífero, um réptil, uma ave inesperada. Apesar de ter completado o percurso outras vezes, aquele dia foi diferente: o animal deixou tudo melhor. O que quase nenhum dos trilheiros nota, no entanto, é a presença de árvores, arbustos e pequenas plantas, muitas vezes igualmente raras, tão (ou mais?) importantes quanto os animais, e com propriedades diferentes e interessantes. É o que chamamos de cegueira botânica.

Ao vermos um animal em seu ambiente natural, cercado de plantas, nosso cérebro o destaca, porém transforma as plantas em uma massa verde amorfa. É compreensível: nos conectamos facilmente com o comportamento animal, enquanto os vegetais, com seu crescimento lento, movimentos pouco perceptíveis e organização corporal muito diferente, parecem quase alienígenas. O diretor Steven Spielberg, em conversa com o astrofísico Neil deGrasse Tyson, diz ter pensado o personagem E.T. como planta, mas acabou fazendo alterações para gerar empatia, tornando-o mais parecido conosco.

Plantas têm uma intrincada relação com a história da humanidade. No livro Plantas e civilização, o biólogo Luiz Mors Cabral, professor da Universidade Federal Fluminense, relata como elas participaram de alguns eventos históricos. A descoberta do rio Amazonas (pelos europeus, pois os povos nativos o conheciam havia tempos) ocorreu porque exploradores buscavam valiosas “árvores de canela”, embora essas plantas não existissem na América do Sul (havia apenas uma cujo casco cheirava a canela). No século 19, a massiva migração da Irlanda, em especial para os Estados Unidos – não à toa Boston tem uma das maiores festas de St. Patrick’s Day do mundo, e o time de basquete da cidade é o Celtics –, foi motivada por uma doença nas batatas, tubérculo então crucial para a alimentação dos irlandeses.

Já em Sob o efeito das plantas, Michael Pollan sugere que o café – a cafeína, especificamente, nosso vício quase universal – pode ter acelerado o Iluminismo e o desenvolvimento da ciência moderna. Como água potável era difícil de armazenar sem ser logo contaminada, consumia-se cerveja e vinho, pois o álcool impedia o crescimento de bactérias. O efeito adverso era a dificuldade em enfrentar um dia de trabalho e estar bem hidratado. O hábito do café, bebida fervida (e, portanto, estéril) ofereceu uma alternativa, com a vantagem de aumentar a energia e o foco, e sobretudo manter os indivíduos sóbrios. Talvez não por acaso os coffee shops britânicos eram locais onde vários expoentes intelectuais da época se encontravam para discutir ideias que contribuíram para o Iluminismo.

A relação das plantas com os seres humanos é ainda mais profunda. Quando éramos caçadores-coletores, comíamos carne de animais de caça, raízes, frutos e grãos em uma dieta variada. Há cerca de 10 mil anos, passamos a guardar alguns grãos e os plantamos perto do acampamento, para facilitar a colheita. Logo estávamos selecionando sementes das plantas que produziam mais. Iniciamos assim a Revolução Agrícola, e nos tornamos agricultores. Como explica Yuval Noah Harari no livro Sapiens, a domesticação de algumas plantas permitiu que alimentássemos um número maior de pessoas, ainda que com uma nutrição mais restrita. Enquanto modificávamos plantas de trigo, milho, arroz, batata, tomate, ervilha, feijão – até que produzimos novas espécies, agora dependentes de nós, e nós delas –, criamos vilarejos e posteriormente cidades. A domesticação de plantas ocorreu entre 10 mil e 3 mil anos atrás, e hoje são os vegetais que sustentam nossa segurança alimentar.

Como sabemos, a fotossíntese, também realizada por organismos de célula única na superfície dos oceanos, é a marca registrada dos vegetais. Ela captura energia do Sol e a armazena em ligações entre átomos de carbono, derivados do CO2 atmosférico. A energia armazenada é depois utilizada pelas próprias plantas para sustentar seu funcionamento e crescimento. Os animais, por sua vez, como não fazem fotossíntese, precisam “roubar” energia. Se esse mecanismo de captura de energia solar parasse de funcionar, a vida multicelular não sobreviveria – nós próprios, os humanos, inclusos. A fotossíntese também produz como subproduto oxigênio (O2), essencial para grande parte da vida na Terra. Na verdade, quando esse tipo de fotossíntese surgiu na Terra, há cerca de 2 bilhões de anos, os organismos que a utilizavam foram tão bem-sucedidos que se multiplicaram rapidamente, causando um excesso de O2 na atmosfera. O acúmulo levou à extinção em massa, e apenas aqueles organismos que sabiam lidar com o O2 sobreviveram. Ou seja, o Grande Evento de Oxidação mudou a história evolutiva, e sem ele talvez nós, que dependemos de oxigênio, não estivéssemos aqui. As plantas estão no centro de uma das principais questões que ameaçam a mesma civilização que ajudaram a criar. As mudanças climáticas são em grande parte causadas pelo uso massivo de combustíveis fósseis. A origem deles? Fotossíntese antiga. Estamos devolvendo rapidamente para a atmosfera o CO2 capturado na biosfera ao longo de milhões de anos, causando aumento da temperatura do planeta. Em How Light Makes Life, o biólogo Raffael Jovine sugere que a fotossíntese, o mecanismo de captura de carbono mais eficiente da natureza – e por enquanto mais eficiente do que os artificiais –, é a solução. Ou seja: para combater as mudanças climáticas, precisamos de mais plantas que vivam muitos anos, acumulem muito carbono em seus corpos e custem barato. Pensou numa árvore? Então talvez você tenha diminuído sua cegueira botânica. Plante, e contribua.

(Felipe Ricachenevsky. Felipe Klein Ricachenevsky é professor e pesquisador da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. https://www1.folha.uol.com.br /blogs/ciencia-fundamental/2023/05/por-que-os-animais-nos-fascinam-mais-do-que-as-plantas.shtml. 4.mai.2023.)

 

Plantas têm uma intrincada relação com a história da humanidade. No livro Plantas e civilização [1], o biólogo Luiz Mors Cabral [2], professor da Universidade Federal Fluminense [3], relata como elas participaram de alguns eventos históricos. A descoberta do rio Amazonas [4] (pelos europeus, pois os povos nativos o conheciam havia tempos) ocorreu porque exploradores buscavam valiosas “árvores de canela”, embora essas plantas não existissem na América do Sul (havia apenas uma cujo casco cheirava a canela).

No período acima, há quatro termos sublinhados e numerados. Assinale a alternativa em que esteja indicado um termo com função sintática distinta da dos demais.

  1. [1]
  2. [2]
  3. [3]
  4. [4]
Mostrar resposta e comentário

Gabarito

Certo

Comentário do professor

Da Universidade Federal Fluminense funciona como adjunto adnominal do substantivo professor. Isso porque a expressão, iniciada pela preposição "da", estabelece uma relação de posse/pertinência entre o professor e a instituição, qualificando o substantivo concreto.

Características que confirmam essa função: liga-se a um substantivo concreto ("professor"); é removível sem romper a estrutura básica da oração; e tem valor atributivo, indicando a filiação ou vínculo do substantivo.

Ao identificar um adjunto adnominal preposicionado, procure a preposição introdutória e a relação direta com um substantivo nominal — sinais claros de que se trata de um modificador adnominal e não de outro termo sintático.

Conteúdo do catálogo FC Concursos · Atualizado em

Continue aprendendo