Questão FC244921
Texto para responder a questão. CAPÍTULO XI / O MENINO É PAI DO HOMEM Cresci; e nisso é que a família não interveio; cresci naturalmente, como crescem as magnólias e os gatos. Talv
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IDECAN · 2019
Texto para responder a questão.
CAPÍTULO XI / O MENINO É PAI DO HOMEM
Cresci; e nisso é que a família não interveio; cresci naturalmente, como crescem as magnólias e os gatos. Talvez os gatos são menos matreiros, e com certeza, as magnólias são menos inquietas do que eu era na minha infância. Um poeta dizia que o menino é pai do homem. Se isto é verdade, vejamos alguns lineamentos do menino.
Desde os cinco anos merecera eu a alcunha de “menino diabo”; e verdadeiramente não era outra coisa; fui dos mais malignos do meu tempo, arguto, indiscreto, traquinas e voluntarioso. Por exemplo, um dia quebrei a cabeça de uma escrava, porque me negara uma colher do doce de coco que estava fazendo, e, não contente com o malefício, deitei um punhado de cinza ao tacho, e, não satisfeito da travessura, fui dizer à minha mãe que a escrava é que estragara o doce “por pirraça”; e eu tinha apenas seis anos. Prudêncio, um moleque de casa, era o meu cavalo de todos os dias; punha as mãos no chão, recebia um cordel nos queixos, à guisa de freio, eu trepava-lhe ao dorso, com uma varinha na mão, fustigava-o, dava mil voltas a um e outro lado, e ele obedecia, — algumas vezes gemendo, — mas obedecia sem dizer palavra, ou, quando muito, um — “ai, nhonhô!” — ao que eu retorquia: — “Cala a boca, besta!” — Esconder os chapéus das visitas, deitar rabos de papel a pessoas graves, puxar pelo rabicho das cabeleiras, dar beliscões nos braços das matronas, e outras muitas façanhas deste jaez, eram mostras de um gênio indócil, mas devo crer que eram também expressões de um espírito robusto, porque meu pai tinha-me em grande admiração; e se às vezes me repreendia, à vista de gente, fazia-o por simples formalidade: em particular dava-me beijos.
(Joaquim Maria Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas)
Com base na norma culta do português contemporâneo brasileiro, é correto afirmar que o acento indicador de crase no trecho “fui dizer à minha mãe” é
- obrigatório.
- apenas fonético.
- facultativo.
- impossível.
- não recomendável contextualmente.
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Gabarito
Certo
Comentário do professor
Resposta: a crase é facultativa na expressão fui dizer à minha mãe.
A crase resulta da fusão entre a preposição "a" (exigida pelo verbo dizer, que rege complemento indireto) e o artigo "a" que, eventualmente, acompanha o substantivo feminino. Aqui, o núcleo do complemento é o pronome possessivo minha, e o uso do artigo antes de pronomes possessivos é opcional na norma culta.
Assim, são aceitas ambas as formas: fui dizer a minha mãe (sem crase) e fui dizer à minha mãe (com crase). A escolha fica a critério do falante ou do redator; costuma-se usar a crase quando se quer evitar ambiguidade ou marcar maior formalidade.
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