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Questão FC245022

TEXTO PARA A QUESTÃO Rio sem discurso Quando um rio corta, corta-se de vez o discurso-rio de água que ele fazia; cortado, a água se quebra em pedaços, em poços de água, em água par

Vozes (Voz Passiva e Voz Ativa)

IDECAN · 2019

TEXTO PARA A QUESTÃO

 

Rio sem discurso

 

Quando um rio corta, corta-se de vez

o discurso-rio de água que ele fazia;

cortado, a água se quebra em pedaços,

em poços de água, em água paralítica.

Em situação de poço, a água equivale

a uma palavra em situação dicionária:

isolada, estanque no poço dela mesma,

e porque assim estanque, estancada;

e mais: porque assim estancada, muda,

e muda porque com nenhuma comunica,

porque cortou-se a sintaxe desse rio,

o fio de água por que ele discorria.

 

O curso de um rio, seu discurso-rio,

chega raramente a se reatar de vez;

um rio precisa de muito fio de água

para refazer o fio antigo que o fez.

Salvo a grandiloquência de uma cheia

lhe impondo interina outra linguagem,

um rio precisa de muita água em fios

para que todos os poços se enfrasem:

se reatando, de um para outro poço,

em frases curtas, então frase a frase,

até a sentença-rio do discurso único

em que se tem voz a seca ele combate.

 

João Cabral de Melo Neto

 

A mesma voz verbal de “cortou-se a sintaxe desse rio” pode ser encontrada em

  1. “Ouviram-se as vozes dos poetas esquecidos.”
  2. “Sentaram-se à mesa.”
  3. “Necessitava-se de mais alimento para continuar a caminhada.”
  4. “Trançou-me os cabelos.”
  5. “Parecia-me muito triste o pobre menino abandonado.”
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Gabarito

A

Comentário do professor

A oração “Ouviram-se as vozes dos poetas esquecidos.” exemplifica a voz passiva sintética: o verbo aparece acompanhado da partícula apassivadora se, que transforma a construção ativa em passiva sem o verbo auxiliar ser/estar.

Aqui ouviram é verbo transitivo direto (verbo de ação que admite objeto direto), e as vozes dos poetas esquecidos funciona como sujeito paciente — aquilo que sofre a ação. A expressão do agente fica omitida ou indeterminada (equivalente a “por alguém”).

Na voz passiva analítica a frase se reescreve como: “As vozes dos poetas esquecidos foram ouvidas (por alguém).” Observe que o verbo concorda com o sujeito paciente (plural) e mantém o mesmo tempo verbal.

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