Questão FC245118
Leia o texto abaixo para responder à questão CAPÍTULO PRIMEIRO / ÓBITO DO AUTOR Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em pr
Linguagem
IDECAN · 2019
Leia o texto abaixo para responder à questão
CAPÍTULO PRIMEIRO / ÓBITO DO AUTOR
Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço; a segunda é que o escrito ficaria assim mais galante e mais novo. Moisés, que também contou a sua morte, não a pôs no intróito, mas no cabo: diferença radical entre este livro e o Pentateuco.
Dito isto, expirei às duas horas da tarde de uma sexta-feira do mês de agosto de 1869, na minha bela chácara de Catumbi. Tinha uns sessenta e quatro anos, rijos e prósperos, era solteiro, possuía cerca de trezentos contos e fui acompanhado ao cemitério por onze amigos. Onze amigos! Verdade é que não houve cartas nem anúncios. Acresce que chovia — peneirava uma chuvinha miúda, triste e constante, tão constante e tão triste, que levou um daqueles fiéis da última hora a intercalar esta engenhosa idéia no discurso que proferiu à beira de minha cova: — “Vós, que o conhecestes, meus senhores, vós podeis dizer comigo que a natureza parece estar chorando a perda irreparável de um dos mais belos caracteres que têm honrado a humanidade. Este ar sombrio, estas gotas do céu, aquelas nuvens escuras que cobrem o azul como um crepe funéreo, tudo isso é a dor crua e má que lhe rói à Natureza as mais íntimas entranhas; tudo isso é um sublime louvor ao nosso ilustre finado.”
Bom e fiel amigo! Não, não me arrependo das vinte apólices que lhe deixei.
(Machado de ASSIS. Memórias Póstumas de Brás Cubas)
Conquanto a obra de Machado de Assis seja permeada da variante linguística culta da língua portuguesa, observam-se algumas marcas de oralidade, tais como em “Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte.”. A principal marca de oralidade presente no texto, do ponto de vista do emprego das categorias gramaticais, é a utilização
- coloquial do pretérito imperfeito do indicativo em substituição ao futuro do pretérito do indicativo, comum no Português Brasileiro Contemporâneo.
- de sintaxe estranha ao Português Brasileiro Contemporâneo.
- de acentuação gráfica estranha ao Português Brasileiro Contemporâneo.
- de pontuação estranha ao Português Brasileiro Contemporâneo.
- de recursos de interdiscursividade, comuns no Português Brasileiro Contemporâneo.
Mostrar resposta e comentário
Gabarito
A
Comentário do professor
A alternativa indica que há uma marca de oralidade: a substituição do futuro do pretérito pelo pretérito imperfeito do indicativo.
No trecho “Algum tempo hesitei se devia abrir...”, a oração tem valor condicional, exigindo o futuro do pretérito (“se deveria abrir”) para concordar com a ideia de condição hipotética decorrente de “hesitei”.
O autor emprega “se devia” (pretérito imperfeito) por uso coloquial, fenômeno comum no Português Brasileiro Contemporâneo, que aproxima a fala da escrita.
Note que em “se poria” já aparece corretamente o futuro do pretérito, o que evidencia a alternância estilística entre norma culta e traço oral no texto.
Conteúdo do catálogo FC Concursos · Atualizado em