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Questão FC245152

TEXTO PARA A QUESTÃO. Caso pluvioso (Carlos Drummond de Andrade. Viola de Bolso, 1955) A chuva me irritava. Até que um dia descobri que Maria é que chovia. A chuva era Maria. E cad

Linguagem

IDECAN · 2019

TEXTO PARA A QUESTÃO.

 

Caso pluvioso (Carlos Drummond de Andrade. Viola de Bolso, 1955)

 

A chuva me irritava. Até que um dia

descobri que Maria é que chovia.

A chuva era Maria. E cada pingo

de Maria ensopava o meu domingo.

 

E meus ossos molhando, me deixava

como terra que a chuva lavra e lava.

Eu era todo barro, sem verdura...

Maria, chuvosíssima criatura!

 

Ela chovia em mim, em cada gesto,

pensamento, desejo, sono, e o resto.

Era chuva fininha e chuva grossa,

matinal e noturna, ativa... Nossa!

 

Não me chovas, Maria, mais que o justo

chuvisco de um momento, apenas susto.

Não me inundes de teu líquido plasma,

não sejas tão aquático fantasma!

 

Eu lhe dizia em vão - pois que Maria

quanto mais eu rogava, mais chovia.

E chuveirando atroz em meu caminho,

o deixava banhado em triste vinho,

 

que não aquece, pois água de chuva

mosto é de cinza, não de boa uva.

Chuvadeira Maria, chuvadonha,

chuvinhenta, chuvil, pluvimedonha!

 

Eu lhe gritava: Pára! e ela chovendo,

poças d'água gelada ia tecendo.

Choveu tanto Maria em minha casa

que a correnteza forte criou asa

 

e um rio se formou, ou mar, não sei,

sei apenas que nele me afundei.

E quanto mais as ondas me levavam,

as fontes de Maria mais chuvavam,

 

de sorte que com pouco, e sem recurso,

as coisas se lançaram no seu curso,

e eis o mundo molhado e sovertido

sob aquele sinistro e atro chuvido.

 

Os seres mais estranhos se juntando

na mesma aquosa pasta iam clamando

contra essa chuva estúpida e mortal

catarata (jamais houve outra igual).

 

Anti-petendam cânticos se ouviram.

Que nada! As cordas d'água mais deliram,

e Maria, torneira desatada,

mais se dilata em sua chuvarada.

 

Os navios soçobram. Continentes

já submergem com todos os viventes,

e Maria chovendo. Eis que a essa altura,

delida e fluida a humana enfibratura,

 

e a terra não sofrendo tal chuvência,

comoveu-se a Divina Providência,

e Deus, piedoso e enérgico, bradou:

Não chove mais, Maria! - e ela parou.

 

Levando em consideração o texto lido, assinale a característica mais adequada a esse gênero textual.

  1.  Trata-se de relato de fatos individuais cuja única finalidade é o deleite do próprio enunciador.
  2.  Caracteriza-se pela interpretação afetiva de acontecimentos passados, a fim de guardá-los da ação do tempo.
  3.  Apresenta predominância de função emotiva da linguagem, pois o discurso centra-se na subjetividade do enunciador.
  4.  Estrutura-se em versos e caracteriza-se pela preocupação com a forma do discurso, de modo que o centro de interesse da comunicação é o trabalho com a linguagem.
  5.  A realidade é transmitida sob o ponto de vista do emissor, a mensagem é subjetiva e centrada no emitente e, portanto, apresenta-se na primeira pessoa.
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Gabarito

D

Comentário do professor

O poema está organizado em versos e apresenta forte preocupação com a forma do discurso: ritmo, sonoridade, repetições e jogos lexicais orientam a mensagem mais que uma narração objetiva.

Nesse texto, a linguagem é trabalhada para criar imagens e efeitos (personificação de Maria como chuva, neologismos como chuvil, aliterações), evidenciando a função poética, cujo foco é o modo de dizer e não apenas o conteúdo.

Por isso, o centro comunicativo é o trabalho com a linguagem: recursos formais e estilísticos constituem o principal interesse do enunciador, característica típica do gênero lírico/poético.

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