Questão FC245213
Diva. Visitando o negociante, vi ao entrar na sala uma linda moça, que não reconheci. Estava só. De pé no vão da janela cheia de luz, meio reclinada ao peitoril, tinha na mão um li
Interpretação de Textos (Compreensão)
IDECAN · 2024
Diva.
Visitando o negociante, vi ao entrar na sala uma linda moça, que não reconheci.
Estava só. De pé no vão da janela cheia de luz, meio reclinada ao peitoril, tinha na mão um livro aberto e lia com atenção.
Não é possível idear nada mais puro e harmonioso do que o perfil dessa estátua de moça. Era alta e esbelta. Tinha um desses talhes flexíveis e lançados, que são hastes de lírio para o rosto gentil; porém, na mesma delicadeza do porte, esculpiam-se os contornos mais graciosos com firme nitidez das linhas e uma deliciosa suavidade nos relevos.
Não era alva, também não era morena. Tinha sua tez a cor das pétalas da magnólia, quando vão desfalecendo ao beijo do sol. Mimosa cor de mulher, se a aveluda a pubescência juvenil, e a luz coa pelo fino tecido, e um sangue puro a escumilha de róseo matiz. A dela era assim.
Uma altivez de rainha cingia-lhe a fronte, como diadema cintilando na cabeça de um anjo. Havia em toda a sua pessoa um quer que fosse de sublime e excelso que a abstraía da terra. Contemplando-a naquele instante de enlevo, dir-se-ia que ela se preparava para sua celeste ascensão.
Às vezes, porém, a impressão da leitura turbava a serena elação da sua figura, e despertava nela a mulher. Então desferia alma por todos os poros. Os grandes olhos, velutados de negro, rasgavam-se para dardejar as centelhas elétricas do nervoso organismo. Nesses momentos toda ela era somente coração, porque toda ela palpitava e sentia.
Eu tinha parado na porta, e admirava: afinal adiantei-me para cumprimentá-la. Ouvindo o rumor dos meus passos, ela voltou-se.
- Minha senhora!... Murmurei inclinando-me.
As cores fugiram-lhe. Ela vestiu-se como de uma túnica lívida e glacial: logo depois sua fisionomia anuviou-se, e eu vi lampejos fuzilarem naquela densidade de uma cólera súbita.
Fulminou-me com um olhar augusto e desapareceu.
Acreditas, Paulo, que essa moça que te descrevi fosse Emília, a menina feia e desgraciosa que eu deixara dois anos antes? Que sublime trabalho de florescência animada não realizara a natureza nessa mulher!
Emília teria então dezessete anos. Sentia-se, olhando-a, a influência misteriosa que um espírito superior tinha exercido na revolução operada em sua pessoa. O trajo, ainda nimiamente avaro dos encantos que ocultava, era de um molde severo; mas havia, no gracioso da forma e na combinação do enfeite, uns toques artísticos, que se revelavam também no basto trançado do luxuoso cabelo negro.
Voltei impressionado por essa visão de sala em pleno dia.
Se a transformação de Emília produzira em mim uma admiração grande, maior foi a humilhação que sofri com o seu desdém. Já não era uma menina; estava moça, e não me devia só a cortesia a que tem direito o homem delicado, devia-me gratidão.
- Talvez ignore! Disse eu comigo.
Nos dias que se seguiram, surgiu alguma vez em meu espírito aquela imagem de moça; mas essa lembrança me incomodava.
Uma tarde encontrei-me com o irmão:
- Ia à tua casa! Disse-me Geraldo.
- Pois vamos.
- Não. Já que te encontrei poupa-me essa maçada. Minha tia manda-te dizer que amanhã toma-se chá em sua casa. Julinha faz anos.
- Ah! D. Matilde?...
- Sim. Adeus.
- Espera.
- Não posso. Ainda vou à chácara, e tenho de voltar para o teatro.
D. Matilde é casada com um irmão de Duarte. Seu marido vive constantemente na fazenda, trabalhando para tirar dela os avultados rendimentos necessários ao luxo que sua família ostenta na corte. Ainda moça, bonita e muito elegante, ela é perdida pelo cortejo e galanteio de sala. Nunca a honra conjugal sucumbiu a essa fascinação, mas a casta dignidade da esposa foi sacrificada sem reserva.
Disponível em: https://objdigital.bn.br/Acervo_Digital/Livros_eletronicos/diva.pdf
Acerca do exposto no texto, assinale a alternativa correta.
- O narrador afirma que, apesar dos inúmeros embevecimentos da corte e ausência do marido, D. Matilde seguia sua vida com postura honrada.
- O narrador é convidado às pressas para a comemoração do aniversário da tia de seu amigo, Julinha, uma vez que Geraldo tinha muito o que fazer.
- O narrador não reconheceu Emília assim que a viu na casa do negociante, por isso a moça recebeu-o com a mesma indiferença.
- O narrador, Paulo, encontra, anos depois, uma jovem que era sua conhecida, Emília, mas não a reconhece devido às mudanças na aparência da moça.
- O narrador, à primeira vista, não soube quem era a moça que lia sozinha, mas perturbava-se com a recordação do desprezo a ele destinado.
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Gabarito
Errado
Comentário do professor
A alternativa está correta porque o narrador, em primeira pessoa, descreve claramente que não a reconheceu de início: "vi ao entrar na sala uma linda moça, que não reconheci". Esse dado focaliza a surpresa inicial diante da figura desconhecida.
Ao aproximar‑se, recebe dela uma atitude hostil — "As cores fugiram‑lhe... fulminou‑me com um olhar augusto e desapareceu" — evidenciando um desdém que o atinge diretamente.
O texto explicita o efeito emocional dessa recepção: "maior foi a humilhação que sofri com o seu desdém". O narrador sente-se ofendido porque esperava cortesia ou até gratidão.
Além disso, fica registrado que, depois do encontro, a lembrança daquele desprezo o afligia: "Nos dias que se seguiram, surgiu... essa lembrança me incomodava". Assim, a opção sintetiza com precisão os fatos e a reação psicológica descritos pelo narrador.
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