Questão FC245217
Texto de Clarice Lispector. Um amigo meu, médico, assegurou-me que desde o berço a criança sente o ambiente, a criança quer: nela o ser humano, no berço mesmo, já começou. Tenho ce
Interpretação de Textos (Compreensão)
IDECAN · 2024
Texto de Clarice Lispector.
Um amigo meu, médico, assegurou-me que desde o berço a criança sente o ambiente, a criança quer: nela o ser humano, no berço mesmo, já começou.
Tenho certeza de que no berço a minha primeira vontade foi a de pertencer. Por motivos que aqui não importam, eu de algum modo devia estar sentindo que não pertencia a nada e a ninguém. Nasci de graça.
Se no berço experimentei esta fome humana, ela continua a me acompanhar pela vida afora, como se fosse um destino. A ponto de meu coração se contrair de inveja e desejo quando vejo uma freira: ela pertence a Deus.
Exatamente porque é tão forte em mim a fome de me dar a algo ou a alguém, é que me tornei bastante arisca: tenho medo de revelar de quanto preciso e de como sou pobre. Sou, sim. Muito pobre. Só tenho um corpo e uma alma. E preciso de mais do que isso.
Com o tempo, sobretudo os últimos anos, perdi o jeito de ser gente. Não sei mais como se é. E uma espécie toda nova de “solidão de não pertencer” começou a me invadir como heras num muro.
Se meu desejo mais antigo é o de pertencer, por que então nunca fiz parte de clubes ou de associações? Porque não é isso que eu chamo de pertencer. O que eu queria, e não posso, é por exemplo que tudo o que me viesse de bom de dentro de mim eu pudesse dar àquilo que eu pertenço. Mesmo minhas alegrias, como são solitárias às vezes. E uma alegria solitária pode se tornar patética.
É como ficar com um presente todo embrulhado em papel enfeitado de presente nas mãos - e não ter a quem dizer: tome, é seu, abra-o! Não querendo me ver em situações patéticas e, por uma espécie de contenção, evitando o tom de tragédia, raramente embrulho com papel de presente os meus sentimentos.
Pertencer não vem apenas de ser fraca e precisar unir-se a algo ou a alguém mais forte. Muitas vezes a vontade intensa de pertencer vem em mim de minha própria força - eu quero pertencer para que minha força não seja inútil e fortifique uma pessoa ou uma coisa.
Quase consigo me visualizar no berço, quase consigo reproduzir em mim a vaga e no entanto premente sensação de precisar pertencer. Por motivos que nem minha mãe nem meu pai podiam controlar, eu nasci e fiquei apenas: nascida.
A vida me fez de vez em quando pertencer, como se fosse para me dar a medida do que eu perco não pertencendo. E então eu soube: pertencer é viver.
Fonte: https://www.culturagenial.com/clarice-lispector-textos-poeticos-comentados/.
De acordo com o texto, é possível inferir que a autora aborda questões relacionadas ao(à)
- controle dos pais sobre a vida dos filhos.
- religião e ao pertencimento.
- casamento e à criação de filhos.
- angústia e ao sentimento de solidão.
- violências e aos problemas financeiros.
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Gabarito
D
Comentário do professor
A opção D está correta porque o texto explora, de modo recorrente, a experiência interior de angústia e o sentimento de solidão decorrente do não pertencimento.
A autora descreve uma "fome humana" desde o berço e admite que isso a acompanha "pela vida afora", expressão que revela uma ansiedade persistente e existencial — característica da angústia.
Além disso, há afirmações explícitas de isolamento: "uma espécie toda nova de 'solidão de não pertencer' começou a me invadir" e "minhas alegrias, como são solitárias às vezes", comprovando o tema da solidão.
Portanto, a leitura do texto permite inferir diretamente que a autora trata dessas emoções íntimas, sustentadas por expressões e imagens que reforçam o sofrimento e o isolamento.
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