Questão FC245219
Texto para a questão. AÍ PELAS TRÊS DA TARDE Nesta sala atulhada de mesas, máquinas e papéis, onde invejáveis escreventes dividiram entre si o bom senso do mundo, aplicando-se em i
Interpretação de Textos (Compreensão)
IDECAN · 2024
Texto para a questão.
AÍ PELAS TRÊS DA TARDE
Nesta sala atulhada de mesas, máquinas e papéis, onde invejáveis escreventes dividiram entre si o bom senso do mundo, aplicando-se em ideias claras apesar do ruído e do mormaço, seguros ao se pronunciarem sobre problemas que afligem o homem moderno (espécie da qual você, milenarmente cansado, talvez se sinta um tanto excluído), largue tudo de repente sob os olhares à sua volta, componha uma cara de louco quieto e perigoso, faça os gestos mais calmos quanto os tais escribas mais severos, dê um largo “ciao” ao trabalho do dia, assim como quem se despede da vida, e surpreenda pouco mais tarde, com sua presença em hora tão insólita, os que estiveram em casa ocupados na limpeza dos armários, que você não sabia antes como era conduzida. Convém não responder aos olhares interrogativos, deixando crescer, por instantes, a intensa expectativa que se instala. Mas não exagere na medida e suba sem demora ao quarto, libertando aí os pés das meias e dos sapatos, tirando a roupa do corpo como se retirasse a importância das coisas, pondo-se enfim em vestes mínimas, quem sabe até em pelo, mas sem ferir o pudor (o seu pudor, bem entendido), e aceitando ao mesmo tempo, como boa verdade provisória, toda mudança de comportamento. Feito um banhista incerto, assome depois com sua nudez no trampolim do patamar e avance dois passos como se fosse beirar um salto, silenciando de vez, embaixo, o surto abafado dos comentários. Nada de grandes lances. Desça, sem pressa, degrau por degrau, sendo tolerante com o espanto (coitados!) dos pobres familiares, que cobrem a boca com a mão enquanto se comprimem ao pé da escada. Passe por eles calado, circule pela casa toda como se andasse numa praia deserta (mas sempre com a mesma cara de louco ainda não precipitado), e se achegue depois, com cuidado e ternura, junto à rede languidamente envergada entre plantas lá no terraço. Largue-se nela como quem se larga na vida, e vá fundo nesse mergulho: cerre as abas da rede sobre os olhos e, com um impulso do pé (já não importa em que apoio), goze a fantasia de se sentir embalado pelo mundo.
NASSAR, R. Menina a caminho. São Paulo: Cia. das Letras, 1997.
No texto, o enunciador avalia negativamente sua vida e seu comportamento, sugerindo a necessidade de
- mudança de pensamento para se esforçar mais no trabalho.
- maior atenção e responsabilidade na execução do trabalho de escrevente.
- coragem para falar com o supervisor sobre a possibilidade de aumento de salário.
- mudança que depende de um desprendimento e um abandono da “vida moderna”.
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Gabarito
D
Comentário do professor
O enunciador mostra uma avaliação negativa da própria vida ao descrever cansaço e exclusão diante do ambiente de trabalho e da rotina.
Por isso propõe uma mudança que exige desprendimento: a ordenança textual indica que se deve “largar tudo” e até “dê um largo ‘ciao’ ao trabalho do dia, assim como quem se despede da vida”, ações que vão além de ajustes pontuais.
O ato de despir-se simboliza a renúncia às vestes da convenção social — as responsabilidades e aparências da vida moderna — e aponta para um abandono deliberado dessas amarras.
Ao finalizar entregue na rede, com as “abas” sobre os olhos e a fantasia de ser embalado pelo mundo, o texto reforça a ideia de abandono total, não de simples mudança de atitude.
Assim, a transformação sugerida depende essencialmente de um gesto radical de desprendimento e afastamento da vida moderna.
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