Questão FC245236
Três graves equívocos no debate sobre a polarização Há pelo menos três graves equívocos no debate sobre polarização. O primeiro é supor que ela exige algum grau de simetria entre p
Interpretação de Textos (Compreensão)
IDECAN · 2024
Três graves equívocos no debate sobre a polarização
Há pelo menos três graves equívocos no debate sobre polarização. O primeiro é supor que ela exige algum grau de simetria entre posições polares. Alguns argumentam que não há polarização nos EUA porque Biden é centrista. A confusão origina-se na falta de compreensão quanto ao conceito de mediana, muitas vezes entendida como centro.
A mediana de uma distribuição de preferências políticas pode estar ou não no valor central, digamos 5 em uma escala de 1 a 10 (onde 10 é extrema direita e 1, extrema esquerda). Não importa a escala − se baseada no autoposicionamento ou métricas objetivas − a mediana é o ponto que divide o eleitorado em duas partes iguais: metade à esquerda deste ponto e metade à direita.
Segundo o Latinobarometro/Eurobarometro (2023), a mediana está à direita do centro, por exemplo, na Polônia, Brasil e Finlândia − é superior a 6; ou muito mais à direita dele em El Salvador e Montenegro, girando em torno de 7. Em outros está à esquerda (Espanha). A polarização assimétrica nestes casos ocorre entre grupos com posições centrais na escala e um dos polos, e não entre estes últimos. Se a mediana estiver em cerca de 3, posições em 6 será percebida como "fascista".
Uma tendência universal, em eleições majoritárias ou no voto distrital, é que haja uma convergência ideológica dos competidores para a mediana de preferências (não para o centro!). Mas a convergência tem dado lugar a tendências centrípetas.
O segundo equívoco é confundir as dimensões do conflito político (economia, pauta de costumes, etnia, etc.), reduzindo-os a uma dimensão. O equívoco não permite entender a similaridade de posições em relação à economia ou gasto social entre esquerda e direita radicais, etc. Como sabemos, o conflito político tornou-se crescentemente mais multidimensional.
O terceiro é desconsiderar que a polarização não se reduz a questões programáticas. Dados para os EUA mostram certa estabilidade no posicionamento de democratas e republicanos em relação às políticas públicas, mas mudança radical na forma em que percebem uns aos outros.
A divergência no Brasil também é mínima: envolve posse de armas e educação sexual.
A polarização tornou-se afetiva, assentando-se em emoções negativas (desconfiança, desprezo, aversão) dirigidas a grupos políticos rivais.
A métrica mais comum para medi-la é a diferença entre os escores de simpatia para seu próprio partido e rejeição quanto aos rivais.
Embora concordem em relação às políticas, crescentemente abominam a possibilidade que seus filhos casem com adversários políticos.
A geometria política não é simplória.
Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/marcus-melo/
Em relação à leitura do texto e suas possíveis inferências, assinale a alternativa correta.
- Ao afirmar que a convergência se dá para a mediana, há uma comprovação da equidistância dos polos em relação às médias, o que pode levar a uma leitura de mundo igualmente polarizada.
- A ideia de polarização remete a elementos equidistantes em relação à média, como esperado pelo entendimento das pessoas, mas isso não constitui o cerne do texto, bem pelo contrário.
- A questão da polarização abordada pelo texto remete à ideia de como a população reage às questões políticas, sem que isso seja determinante para afetar suas relações pessoais.
- Sem a noção de polarização não seria possível entender por que as pessoas vivem em desarmonia com as demais, transformando toda a sua relação afetiva em motivação secundária e sublimada.
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Gabarito
B
Comentário do professor
Polarização não é necessariamente simetria de posições ao redor do centro. O enunciado correto destaca que a ideia popular — de polos equidistantes em relação à média — é justamente o senso comum, mas o texto contrapõe isso: a mediana do eleitorado pode não coincidir com o centro da escala, de modo que a polarização pode ser assimétrica, ocorrendo entre a mediana e apenas um polo.
O autor também enfatiza que o conflito político é multidimensional e que a polarização se transformou em grande parte em fenômeno afetivo, baseado em desconfiança e aversão, não só em divergências programáticas.
Portanto, a alternativa ressalta corretamente que a noção de equidistância é uma expectativa comum, porém não sintetiza o argumento central do texto.
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