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Questão FC245246

Tomando-se como referência os primeiros anos do século 19: como seria possível comparar países em que a estrutura social era tradicional e a população em grande parte indígena ou d

Interpretação de Textos (Compreensão)

IDECAN · 2024

Texto para a questão.

AS INSTITUIÇÕES E O PRÊMIO NOBEL


Acemoglu, Robinson e Johnson ganharam o Prêmio Nobel de Economia neste ano. Em 2001, eles explicaram o atraso dos países em relação aos países ricos com a tese de que os países que se atrasaram não foram colônias de povoamento como foram os Estados Unidos ou a Austrália. Estavam em parte corretos, porque essa foi a tese clássica de Caio Prado Júnior. Não discutirei aqui esse trabalho.


Em 2005, eles "descobriram" que o atraso dos países periféricos em relação aos países centrais poderia ser explicado pelo fato de suas instituições não terem garantido suficientemente a propriedade e os contratos e, assim, haverem desestimulado os empresários a investir. Estavam, neste caso, errados.


Afirmar a importância de boas instituições para o desenvolvimento é a mesma coisa que dizer que a água é importante. É óbvio que as instituições – as normas que organizam a vida social – são fundamentais.


A questão real não é essa, mas sim se faz sentido usar as instituições para explicar o atraso em vez de considerar as estruturas sociais, como eles fizeram sem saber no trabalho anterior. Elas nos dizem, no caso do atraso, se o país teve uma colonização de povoamento
ou de exploração mercantil, como nos países latino-americanos.


Nos primeiros, formou-se logo uma classe média e a evolução para o capitalismo foi quase natural, enquanto nos países periféricos o caráter tradicional da sociedade e a condição colonial ou dependente se mantiveram por muito tempo; no caso da dependência, até agora.

Nos dizem qual foi o peso do escravismo em cada sociedade.


O que os novos nóbeis de Economia – ou a escola novo-institucionalista à qual pertencem – subestimam é que as instituições são endógenas. Elas dependem das estruturas sociais; elas mudam conforme mudam essas estruturas.


A partir do livro de 1990 de Douglas North, "Instituições, Mudança Institucional e Desempenho Econômico", o institucionalismo se transformou em uma teoria de desenvolvimento. Surgiu, não por acaso, em torno de 1980.


Foi nesse momento que os Estados Unidos e os demais países ricos fizeram a "virada neoliberal" e perceberam que as instituições eram uma forma muito mais cômoda de explicar o atraso da periferia. Dessa maneira, a nova escola livrava-se não apenas de questões estruturais mais difíceis de mudar, mas também do imperialismo ao qual os países periféricos foram e continuam sendo submetidos.


A tese novo-institucionalista da propriedade e dos contratos parece verdadeira à primeira vista, mas realmente não faz sentido.


Tomando-se como referência os primeiros anos do século 19: como seria possível comparar países em que a estrutura social era tradicional e a população em grande parte indígena ou descendente de escravos com a estrutura social de países como os Estados Unidos ou a Austrália?


Dar importância às instituições sem considerar as estruturas tornou mais fácil para o centro neoliberal definir o que os países periféricos deveriam fazer. Bastaria fazer as reformas institucionais – privatizar, desregular, liberalizar – e tudo seria resolvido.


Há ainda a considerar que em países de renda média é comum haver instituições mais modernas e adequadas do que nos países em desenvolvimento. Nós, por exemplo, temos a regulamentação dos medicamentos genéricos que poucos países ricos têm. Na Grã-Bretanha, a obtenção de documentos é mais demorada do que no Brasil. Nos Estados Unidos, o uso de armas de fogo é permitido senão incentivado.


Mudar as instituições é fácil, mudar as estruturas é mais difícil, e o país se livrar do imperialismo é mais difícil ainda. Muito mais fácil é realizar as reformas neoliberais, principalmente a completa liberalização comercial e financeira. O centro não quer o desenvolvimento da periferia; ele não quer que esta produza bens com mão de obra barata para com ele concorrer e quer manter a troca desigual entre manufaturas e commodities.


Sim, as instituições, assim como a água, são importantes. É impossível viver sem elas, mas assim como por trás da água estão as nascentes, por trás das instituições estão as estruturas econômicas e sociais.

 

Luiz Carlos Bresser Pereira. Disponível em:

https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2024/11/as-instituicoes-e-o-premio-nobel.shtml. Acesso em: 6 nov. 2024.

 

Em relação à leitura do texto e suas possíveis inferências, assinale a afirmativa correta.

  1. As estruturas sociais no Brasil, diferentemente de em outros países periféricos, foram mantidas pela alta institucionalização gerada pelo colonialismo de povoamento.
  2. Assim como nos países periféricos, o atraso econômico no Brasil se deveu a uma lacuna de anos sem se realizar qualquer intervenção liberal.
  3. Com os novos estudos, apesar de trazerem o olhar da institucionalização do Estado, da sociedade e da economia, não é possível apontar para a falha completa das ideias de Caio Prado Júnior.
  4. A intervenção do Estado neoliberal na economia e nas instituições econômicas constitui uma ação essencial para que a valorização dos aspectos institucionais dos países centrais se amplie para a reforma dos periféricos.
  5. Se por trás das instituições estão no mínimo as estruturas sociais, é lógico que a condição de país periférico depende exclusivamente do tamanho dessas estruturas e do grau de aperfeiçoamento ao longo da história colonial.
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Gabarito

Certo

Comentário do professor

A alternativa está correta porque o texto reconhece que os estudos novo-institucionalistas acrescentam um olhar relevante sobre a institucionalização do Estado, da sociedade e da economia, mas não anulam a explicação histórica-estrutural de Caio Prado Júnior.

O autor destaca que as instituições são endógenas — isto é, dependem das estruturas sociais — e, portanto, não faz sentido substituir totalmente uma explicação pela outra. Em suas palavras: “por trás das instituições estão as estruturas econômicas e sociais”.

Assim, embora institucionalizar aspectos como propriedade e contratos seja importante, não se pode apontar para a falha completa de uma abordagem que enfatiza as raízes coloniais e as estruturas sociais como determinantes do atraso.

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