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Questão FC245426

Leia o texto abaixo para responder à questão CAPÍTULO PRIMEIRO / ÓBITO DO AUTOR Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em pr

Interpretação de Textos (Compreensão)

IDECAN · 2019

Leia o texto abaixo para responder à questão


CAPÍTULO PRIMEIRO / ÓBITO DO AUTOR

 

Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço; a segunda é que o escrito ficaria assim mais galante e mais novo. Moisés, que também contou a sua morte, não a pôs no intróito, mas no cabo: diferença radical entre este livro e o Pentateuco.

 

Dito isto, expirei às duas horas da tarde de uma sexta-feira do mês de agosto de 1869, na minha bela chácara de Catumbi. Tinha uns sessenta e quatro anos, rijos e prósperos, era solteiro, possuía cerca de trezentos contos e fui acompanhado ao cemitério por onze amigos. Onze amigos! Verdade é que não houve cartas nem anúncios. Acresce que chovia — peneirava uma chuvinha miúda, triste e constante, tão constante e tão triste, que levou um daqueles fiéis da última hora a intercalar esta engenhosa idéia no discurso que proferiu à beira de minha cova: — “Vós, que o conhecestes, meus senhores, vós podeis dizer comigo que a natureza parece estar chorando a perda irreparável de um dos mais belos caracteres que têm honrado a humanidade. Este ar sombrio, estas gotas do céu, aquelas nuvens escuras que cobrem o azul como um crepe funéreo, tudo isso é a dor crua e má que lhe rói à Natureza as mais íntimas entranhas; tudo isso é um sublime louvor ao nosso ilustre finado.”

 

Bom e fiel amigo! Não, não me arrependo das vinte apólices que lhe deixei.

 

(Machado de ASSIS. Memórias Póstumas de Brás Cubas)

 

No recorte textual, “(...) por onze amigos. Onze amigos!”, a repetição do signo linguístico “amigos”, relacionada à sequência do texto, bem como à sentença “Bom e fiel amigo! Não, não me arrependo das vinte apólices que lhe deixei.”, sugere

  1. gênero paráfrase.
  2. gênero epistolar.
  3. recurso irônico.
  4. atitude de agradecimento do narrador personagem.
  5. ufanismo.
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Gabarito

Certo

Comentário do professor

Repetição de “Onze amigos. Onze amigos!” funciona como um ressalto irônico: não celebra presença numerosa, mas sublinha a míngua afetiva do defunto, transformando o dado em motivo de escárnio.

A frase seguinte, “Bom e fiel amigo! Não, não me arrependo das vinte apólices que lhe deixei.”, cria um contraste evidente entre aparente louvor e a revelação de que a amizade foi comprada. Esse descompasso entre o que se enuncia e o que se implica é exatamente o núcleo do recurso irônico.

Ironia, aqui, é a estratégia discursiva que diz algo em tom elogioso para, pelo contexto, transmitir crítica ou sarcasmo. Machado de Assis usa essa técnica para expor a hipocrisia social e provocar riso crítico.

Portanto, a união da repetição enfática com a contradição intencional aponta inequivocamente para um efeito irônico.

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