Questão FC245427
Leia o texto abaixo para responder à questão CAPÍTULO PRIMEIRO / ÓBITO DO AUTOR Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em pr
Interpretação de Textos (Compreensão)
IDECAN · 2019
Leia o texto abaixo para responder à questão
CAPÍTULO PRIMEIRO / ÓBITO DO AUTOR
Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço; a segunda é que o escrito ficaria assim mais galante e mais novo. Moisés, que também contou a sua morte, não a pôs no intróito, mas no cabo: diferença radical entre este livro e o Pentateuco.
Dito isto, expirei às duas horas da tarde de uma sexta-feira do mês de agosto de 1869, na minha bela chácara de Catumbi. Tinha uns sessenta e quatro anos, rijos e prósperos, era solteiro, possuía cerca de trezentos contos e fui acompanhado ao cemitério por onze amigos. Onze amigos! Verdade é que não houve cartas nem anúncios. Acresce que chovia — peneirava uma chuvinha miúda, triste e constante, tão constante e tão triste, que levou um daqueles fiéis da última hora a intercalar esta engenhosa idéia no discurso que proferiu à beira de minha cova: — “Vós, que o conhecestes, meus senhores, vós podeis dizer comigo que a natureza parece estar chorando a perda irreparável de um dos mais belos caracteres que têm honrado a humanidade. Este ar sombrio, estas gotas do céu, aquelas nuvens escuras que cobrem o azul como um crepe funéreo, tudo isso é a dor crua e má que lhe rói à Natureza as mais íntimas entranhas; tudo isso é um sublime louvor ao nosso ilustre finado.”
Bom e fiel amigo! Não, não me arrependo das vinte apólices que lhe deixei.
(Machado de ASSIS. Memórias Póstumas de Brás Cubas)
Na sentença linguística “Acresce que chovia — peneirava uma chuvinha miúda (...)”, sintática e estilisticamente, pode-se afirmar que
- o verbo “chover” possui o mesmo sujeito do verbo “peneirar”.
- há presença de sujeito zero, bem como de personificação ou prosopopeia.
- existe presença de objeto direto interno e pleonástico.
- há presença de emprego de sufixo de valor exclusivamente afetivo-positivo.
- ocorre presença de pronome relativo.
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Gabarito
B
Comentário do professor
Na oração “Acresce que chovia — peneirava uma chuvinha miúda” temos, sintaticamente, oração sem sujeito. Verbos que indicam fenômenos da natureza (como chover) não estabelecem sujeito real; por isso dizemos que há sujeito zero (ausência de núcleo sujeito expresso).
Estilisticamente, a escolha do verbo peneirar é significativa: trata-se de uma ação típica de seres animados. Ao atribuirmos essa ação à chuva, ocorre a figura de linguagem chamada personificação (ou prosopopeia), que confere traços humanos a elementos naturais.
Portanto, a sentença reúne ambas as características: sujeito zero (impessoalidade verbal) e personificação (atribuição humana à chuva), justificando a alternativa correta.
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