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Questão FC245453

Texto para responder a questão. Um motivo para chorar (Olden Hugo.) Era um café da manhã, por volta das sete, a mim fato corriqueiro, na padaria da rua Maricá. Um homem estava já à

Interpretação de Textos (Compreensão)

IDECAN · 2018

Texto para responder a questão.

 

Um motivo para chorar

(Olden Hugo.)

 

Era um café da manhã, por volta das sete, a mim fato corriqueiro, na padaria da rua Maricá. Um homem estava já à mesa menor, só, com pães intactos e apenas o café sendo bebericado, sem aparentar gosto nesse ato. Permaneceu assim por grupos de minutos. Seus olhos focavam, através do vidro, o nada da movimentação expedita de automóveis, bicicletas, cães e pessoas. Houve uma lágrima.

 

Engoli com esforço quando notei o choro emudecido daquele homem. Sua expressão se inalterou no rosto. Era fato bastante enigmático. Não tive reação precisa. Mais lágrimas vieram. Meu café demorou mais que o costumeiro. Pensei em oferecer-lhe um lenço, em perguntar se precisava de algo. Nada disso fiz.

 

Vieram a meu coração tantas razões quantas possíveis capazes de levá-lo a emoção extrema.

 

Era sem dúvida a perda de alguém para a morte inexorável, irreversível. É o motivo mais justo para chorar, o mais comum. Certamente ele amava essa pessoa com um amor que vem naturalmente, com os sentimentos que são latentes nos genes e que se despertam na convivência familiar. Era um amor de grilhões sanguíneos: seu pai, sua mãe, um irmão ou irmã. As lágrimas resultavam, por conseguinte, de lembranças inumeráveis de momentos em presença a qual jamais voltará a se efetivar. Jamais.

 

Mas me houve dúvida. Julgando melhor, vi que o choro era solitário mesmo por solidão. Sua mulher não o acompanhava, não mais. E seria assim adiante. Era um choro de fim, definitivo. Era o fim do amor, que nunca acaba. Ele devia amá-la por motivos inquebráveis, não por sangue, mas por vida compartilhada, o que pode ser mais rijo. Lembrava-se, é pouco improvável, de trocas de solicitudes ao longo da vivência de um mundo restrito a ambos. Recordava-se, e isso provocava o choro, do amor que cresceu por serem uma vida em dois corpos que venceram guerras e festejaram glórias, solitários em sua união.

 

Não era, entretanto, ainda acertado isso. Um amigo apartado, a perda de um emprego de relações vetustas são igualmente legítimas causas de pranto. E por alegria também se chora.

 

Outras lágrimas ganharam a superfície da mesa, passando antes por sua mão que tapava a boca, talvez contendo palavras que viviam por si. Ele suspirava fundo.

 

Havia mais possibilidades. Era então a distância do filho cuja voz diariamente lhe soprava suave os ouvidos, numa ficção tão verossímil que lhe arrancava de dentro o choro evitável por ser doloroso. A lembrança era da personalidade tão autônoma do menino, que mal sabia falar, mas que agia intrépido e seguro sempre. A lembrança era do cheiro, da textura da pele, dos abraços e beijos de amor real. Lembrava-se dos olhos nos seus olhos, como se nada mais houvesse a ver no universo. E não havia de melhor. Nisso vinha o choro.

 

Uma lágrima me desceu junto. Não consegui terminar o café. Ele se levantou e se encaminhou ao caixa. Eu o segui com os olhos, bem úmidos. Quis dar nele um abraço demorado e dizer-lhe que tudo ficaria bem. Quis dizer a ele, com doçura, que era passageiro. Era minha vontade oferecer-lhe um conforto. Ia chamá-lo, mas minha garganta se embargou e chorei mais. Ele saiu pela porta sem que eu sequer pudesse apertar a sua mão.

 

(Disponível em: https://www.facebook.com/oldenhugo.silvafarias/posts/1583838504972154.)

 

Analise as afirmativas sobre o texto a seguir.

 

I. O narrador da história é do tipo onisciente.

 

II. São aventadas cinco hipóteses acerca da causa do choro do homem.

 

III. O narrador indica a possibilidade de intervir na ação da outra personagem em dois momentos.

 

Está(ão) correta(s) apenas a(s) afirmativa(s)

  1. III.
  2. I e II.
  3. I e III.
  4. II e III.
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Gabarito

D

Comentário do professor

As afirmativas II e III são corretas porque o texto propõe explicitamente cinco hipóteses para o choro e registra duas intenções de intervenção do narrador.

Quanto às cinco hipóteses: 1) perda por morte ("perda de alguém para a morte inexorável"); 2) fim da relação conjugal ("sua mulher não o acompanhava, não mais"); 3) afastamento de um amigo ("um amigo apartado"); 4) perda do emprego ("a perda de um emprego de relações vetustas"); 5) distância do filho ("a distância do filho cuja voz diariamente lhe soprava...").

Quanto às duas possibilidades de intervenção: o narrador pensa primeiro em oferecer um lenço ou perguntar se precisava de algo; depois deseja abraçá‑lo e consolá‑lo, mas não consegue ("ia chamá‑lo, mas minha garganta se embargou").

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