Questão FC245476
O maiúsculo e o minúsculo É lastimável quando alguém simplifica em demasia as realidades complexas: perde a proporção dos fatos e se põe a fazer afirmações desprovidas de qualquer
Tipologia e Gênero Textual
IDECAN · 2024
O maiúsculo e o minúsculo
É lastimável quando alguém simplifica em demasia as realidades complexas: perde a proporção dos fatos e se põe a fazer afirmações desprovidas de qualquer fundamento. Enquanto essas simplificações permanecem nos limites do idiossincrático, parece não haver maiores problemas, afinal cada um acredita naquilo que bem lhe apraz. Contudo, quando essas simplificações ultrapassam tais limites e começam a sustentar ações para além do idiossincrático, a situação se torna, no minimo, preocupante.
É o que tem ocorrido ultimamente com certa discussão em torno da lingua. Nessa área, há, sem dúvida, questões maiúsculas a serem enfrentadas. O Brasil precisa desencadear um amplo debate com vista à elaboração de uma nova política linguistica para si, superando os efeitos deletérios de uma situação ainda muito mal resolvida entre nós.
Essa nova política deverá, entre outros aspectos, reconhecer o caráter multilingue do país (o fato de o português ser hegemônico não nos deve cegar para as muitas linguas indígenas, europeias e asiáticas que aqui se falam, multiplicidade que constitui parte significativa do patrimônio cultural brasileiro). Ao mesmo tempo, deverá reconhecer a grande e rica diversidade do português falado aqui, vencendo, de vez, o mito da língua única e homogênea.
Será preciso incluir, nessa nova política, um combate sistemático a todos os preconceitos linguísticos que afetam nossas relações sociais e que constituem pesado fator de exclusão social. E incluir, ainda, um incentivo permanente à pesquisa científica da complexa realidade linguística nacional e à ampla divulgação de seus resultados, estimulando com isso, por exemplo, um registro mais adequado, em gramáticas e dicionários, da norma-padrão real, bem como das demais variedades do português, viabilizando uma comparação sistemática de todas elas, como forma de subsidiar o acesso escolar (hoje tão precarizado) ao padrão oral e escrito.
Apesar de termos essas tarefas maiúsculas à frente, foi uma questão minúscula que, a partir de uma grosseira simplificação dos fatos, acabou por tomar corpo em prejuízo de todo o resto: a presença de palavras da língua inglesa em nosso cotidiano.
Uma observação cuidadosa e honesta dos fatos nos mostra que, proporcionalmente ao tamanho do nosso léxico (composto por cerca de 500 mil palavras), esses estrangeirismos não passam de uma insignificante gota d'água (algumas poucas dezenas) num imenso oceano.
Mostra-nos ainda mais (e aqui um dado fundamental): muitos deles, pelas próprias ações dos falantes, estão já em pleno refluxo (a maioria terá, como em qualquer outra época da história da língua, vida efêmera).
Disponível em https://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs1305200117.htm. Acesso em 11 nov2023. Adaptado.
A intencionalidade discursiva do texto em análise gira em torno de
- expor um estudo científico a respeito dos empréstimos linguísticos que ocorrem nas situações de uso da lingua, de modo a ratificar que uma língua não tem hegemonia sobre outra.
- observar um fato do cotidiano para registrar uma comparação entre os dialetos da língua portuguesa.
- apresentar um ponto de vista sobre aspectos vários que envolvem o multilinguismo e a variação em seus caracteres diversos.
- informar a um público específico, os linguistas, acerca das peculiaridades de cada idioma no processo de estrangeirismo, influência de uma língua sobre outra.
- relatar impressões pessoais acerca do plurilinguismo, que está enraizado no dia a dia do autor, como falante, e que permeia sua vida acadêmica, como estudioso da língua.
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Gabarito
Certo
Comentário do professor
O texto tem, essencialmente, caráter argumentativo: sua intenção é apresentar um ponto de vista sobre diferentes questões ligadas ao uso e à organização das línguas no Brasil.
O autor defende a necessidade de uma nova política linguística que reconheça o caráter multilíngue do país e a variação interna do português, sustentando essa tese com dados e exemplos (p. ex., o tamanho do léxico, a presença limitada de estrangeirismos) e apontando consequências sociais, como o preconceito linguístico e a exclusão.
Assim, a intenção discursiva é convencer o leitor sobre essa agenda — discutir, justificar e propor ações relacionadas ao multilinguismo e à diversidade linguística.
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