Questão FC303535
Os que podem ver mais alto Escrevi, há dias, sobre crítica, arte, cultura. Dizia, em meio a outras coisas, que sem crítica não se pode desenvolver um gosto, pois que ele é uma cons
Morfologia
FGV · 2013
Os que podem ver mais alto
Escrevi, há dias, sobre crítica, arte, cultura.
Dizia, em meio a outras coisas, que sem crítica não se pode desenvolver um gosto, pois que ele é uma construção. Em outras palavras: ausente o espírito crítico, passa a valer tudo – inclusive as empulhações do nosso tempo, como a promoção da subliteratura, o horror musical, a infâmia generalizada na área das artes plásticas etc. E, dias depois, li um livro – “A literatura e os deuses” – que me iluminou particularmente sobre essas questões.
A falta de crítica (portanto, de uma educação bem fundamentada) impede, entre outras coisas, uma clara visão da cultura e da arte. Ficamos meio cegos, incapazes de perceber seja o que for acima da mediocridade. E aqui entra o livro a que me referi, abordando episódio contado por Apolônio de Rodes sobre os argonautas.
Então eles, os heróis, chegaram a uma ilha deserta chamada Tinis, ao alvorecer. Estenderam‐se na praia para descansar – e eis que surge o deus Apolo: “Áureos cachos flutuavam, enquanto avançava; na mão esquerda segurava um arco de prata, às costas levava uma aljava; e, sob os seus pés, toda a ilha fremia, e as ondas se agigantavam na praia.” Quando o deus se vai, voando sobre o oceano, os heróis, por sugestão de Orfeu, consagram‐lhe a ilha e oferecem‐lhe um sacrifício.
Comenta o autor do livro: “Todos têm a mesma visão, todos sentem idêntico terror, todos colaboram na construção do santuário. Mas o que ocorre se não existem argonautas, se não existem mais testemunhas de tal experiência?”
Os heróis puderam ver Apolo porque tinham seus espíritos preparados para o que está além do terrestre e imediato. Apolo é o patrono das artes, o deus da inspiração, entre outras coisas. Em terra de gente que lê sem ler, que ouve sem ouvir, que vê sem ver, ele costuma permanecer invisível. Como no Brasil, cujos gestores e políticos promovem apenas o entretenimento vazio, relegando ao ostracismo a Educação e as Artes – temerosos de que o eleitor venha a ser um dia capaz de olhares altos e lúcidos como os dos argonautas...
(Ruy Espinheira Filho. Adaptado)
Assinale alternativa em que a forma verbal sublinhada funciona como substantivo.
- “Estenderam‐se na praia para descansar”
- “Ficamos meio cegos, incapazes de perceber seja o que for acima da mediocridade”
- “Então eles, os heróis, chegaram a uma ilha deserta chamada Tinis, ao alvorecer”
- “Em terra de gente que lê sem ler...”
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Gabarito
Certo
Comentário do professor
Na frase “chegaram a uma ilha deserta chamada Tinis, ao alvorecer”, alvorecer funciona como substantivo que indica tempo. Está inserido em uma locução prepositiva temporal (ao + substantivo), equivalente a na alvorada ou ao amanhecer.
Teste prático: substitua por um substantivo de sentido idêntico — por exemplo, na alvorada — e mantenha o sentido. Como palavra nominalizada, alvorecer não atua aqui como verbo flexionado nem rege complementos verbais; desempenha a função sintática de adjunto adverbial temporal, não de predicado ou núcleo verbal.
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