Questão FC303678
Eu e ele No vertiginoso mundo dos computadores o meu, que devo ter há uns quatro ou cinco anos, já pode ser definido como uma carroça. Nosso convívio não tem sido muito confortável
Concordância (Verbal e Nominal)
FGV · 2014
Eu e ele
No vertiginoso mundo dos computadores o meu, que devo ter há uns quatro ou cinco anos, já pode ser definido como uma carroça. Nosso convívio não tem sido muito confortável. Ele produz um texto limpo, e é só o que lhe peço. Desde que literalmente metíamos a mão no barro e depois gravávamos nossos símbolos primitivos com cunhas em tabletes até as laudas arrancadas da máquina de escrever para serem revisadas com esferográfica, não havia processo de escrever que não deixasse vestígio nos dedos. Nem o abnegado monge copiando escrituras na sua cela asséptica estava livre do tinteiro virado. Agora, não. Damos ordens ao computador, que faz o trabalho sujo por nós. Deixamos de ser trabalhadores braçais e viramos gerentes de texto. Ficamos pós‐industriais. Com os dedos limpos.
Mas com um custo. Nosso trabalho ficou menos respeitável. O que ganhamos em asseio perdemos em autoridade. A um computador não se olha de cima, como se olhava uma máquina de escrever. Ele nos olha na cara. Tela no olho. A máquina de escrever fazia o que você queria, mesmo que fosse a tapa. Já o computador impõe certas regras. Se erramos, ele nos avisa. Não diz “Burro!”, mas está implícito na sua correção. Ele é mais inteligente do que você. Sabe mais coisas, e está subentendido que você jamais aproveitará metade do que ele sabe. Que ele só desenvolverá todo o seu potencial quando estiver sendo programado por um igual. Isto é, outro computador. A máquina de escrever podia ter recursos que você também nunca usaria (abandonei a minha sem saber para o que servia “tabulador”, por exemplo), mas não tinha a mesma empáfia, o mesmo ar de quem só aguenta os humanos por falta de coisa melhor, no momento.
Eu e o computador jamais seríamos íntimos. Nosso relacionamento é puramente profissional. Mesmo porque, acho que ele não se rebaixaria ao ponto de ser meu amigo. E seu ar de reprovação cresce. Agora mesmo, pedi para ele enviar esta crônica para o jornal e ele perguntou: “Tem certeza?”
(Luís Fernando Veríssimo)
“Eu e o computador jamais seríamos íntimos.”
Assinale a opção que indica a frase que não segue as regras de concordância verbal da norma culta.
- Tu e ele jamais serão íntimos.
- Tu e ele jamais sereis íntimos.
- Você e eu jamais seremos íntimos.
- Vocês e ele jamais sereis íntimos.
- Ela e ele jamais serão íntimos.
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Gabarito
D
Comentário do professor
Na frase “Vocês e ele jamais sereis íntimos.” o erro está no verbo sereis, que é a forma da 2ª pessoa do plural (correspondente a vós).
Na norma culta, o pronome vocês não exige essa flexão: concorda-se, formalmente, com a 3ª pessoa do plural. Portanto, usar sereis cria desacordo entre sujeito e predicado.
Regra prática: quando o sujeito composto inclui vocês + outro elemento, o verbo deve vir na 3ª pessoa do plural. Correção: “Vocês e ele jamais serão íntimos.”
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