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Questão FC303860

Texto Como ensinar a ler Se eu fosse ensinar a uma criança a arte da jardinagem, não começaria com as lições das pás, enxadas e tesouras de podar. Eu a levaria a passear por parque

Tipologia e Gênero Textual

FGV · 2023

Texto

 

Como ensinar a ler


Se eu fosse ensinar a uma criança a arte da jardinagem, não começaria com as lições das pás, enxadas e tesouras de podar. Eu a levaria a passear por parques e jardins, mostraria flores e árvores, falaria sobre suas maravilhosas simetrias e perfumes; a levaria a uma livraria para que ela visse, nos livros de arte, jardins de outras partes do mundo. Aí, seduzida pela beleza dos jardins, ela me pediria para ensinar-lhe as lições das pás, enxadas e tesouras de podar.


Se fosse ensinar a uma criança a beleza da música, não começaria com partituras, notas e pautas. Ouviríamos juntos as melodias mais gostosas e lhe falaria sobre os instrumentos que fazem a música. Aí, encantada com a beleza da música, ela mesma me pediria que lhe ensinasse o mistério daquelas bolinhas pretas escritas sobre cinco linhas. Porque as bolinhas pretas e as cinco linhas são apenas ferramentas para a produção da beleza musical. A experiência da beleza tem de vir antes.


Se fosse ensinar a uma criança a arte da leitura, não começaria com as letras e as sílabas. Simplesmente leria as estórias mais fascinantes que a fariam entrar no mundo encantado da fantasia. Aí então, com inveja dos meus poderes mágicos, ela desejaria que eu lhe ensinasse o segredo que transforma letras e sílabas em estórias.


É muito simples. O mundo de cada pessoa é muito pequeno. Os livros são a porta para um mundo grande. Pela leitura vivemos experiências que não foram nossas e então elas passam a ser nossas. Lemos a estória de um grande amor e experimentamos as alegrias e dores de um grande amor. Lemos estórias de batalhas e nos tornamos guerreiros de espada na mão, sem os perigos das batalhas de verdade. Viajamos para o passado e nos tornamos contemporâneos dos dinossauros. Viajamos para o futuro e nos transportamos para mundos que não existem ainda. Lemos as biografias de pessoas extraordinárias que lutaram por causas bonitas e nos tornamos seus companheiros de lutas. Lendo, fazemos turismo sem sair do lugar. E isso é muito bom.


ALVES, Rubem, Ostra feliz não faz pérola. Ed. Planeta do Brasil Ltda. São Paulo. 2021.

 

O texto acima, considerando-se sua organização discursiva, deve ser incluído entre os textos

  1. descritivos.
  2. narrativos.
  3. dissertativos expositivos.
  4. dissertativos argumentativos.
  5. injuntivos.
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Gabarito

D

Comentário do professor

A alternativa dissertativo-argumentativa é correta porque o texto apresenta uma tese clara: ensinar a ler deve privilegiar o contato com a beleza das histórias antes das técnicas.

Em seguida, o autor desenvolve argumentos que sustentam essa tese por meio de exemplos analógicos (jardinagem, música) e de explicações sobre os benefícios da leitura: ampliação do mundo, vivência de experiências alheias, formação de expectativas.

Há também uso de recursos retóricos (linguagem persuasiva, apelo à sensibilidade do leitor) que visam persuadir e não apenas informar.

Estruturalmente percebe-se introdução (provocação inicial), desenvolvimento (exemplos e justificativas) e conclusão implícita (valorização da leitura), características típicas do gênero.

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