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Questão FC304070

Texto 1 - Fontes murmurantes Não se trata de uma referência às fontes murmurantes cantadas por Ary Barroso em sua "Aquarela do Brasil". As fontes em questão são outras, estão atual

Tipologia e Gênero Textual

FGV · 2018

Texto 1 - Fontes murmurantes


Não se trata de uma referência às fontes murmurantes cantadas por Ary Barroso em sua "Aquarela do Brasil". As fontes em questão são outras, estão atualmente em debate nos meios jornalísticos e legais: o direito de proteger o sigilo das "fontes".


Contrariando a maioria, diria até a unanimidade dos colegas de ofício, sou contra este tipo de sigilo e, sobretudo, contra as fontes em causa. Tenho alguns anos de estrada, mais do que pretendia e merecia, e em minha vida profissional nunca levei em consideração qualquer tipo de informação que não fosse assumida pelo informante.


Evidente que fui mais furado do que um ralador de coco. Mas não fiz minha carreira no jornalismo na base de furos, que nunca os dei e nunca os levei a sério, uma vez que a maioria dos furos são, por natureza, furados.


O sigilo das fontes beneficia as fontes, e não o jornalista, que geralmente é manipulado na medida em que aceita e divulga as informações obtidas com a garantia do próprio sigilo. São fontes realmente murmurantes, que transmitem os murmúrios, as especulações e as jogadas inconfessáveis dos interessados, que são os próprios informantes.


Digo "inconfessáveis" por um motivo óbvio: se fossem confessáveis, as fontes não pediriam sigilo, confessariam o que sabem ou supõem, assumindo a responsabilidade pela informação.


Os defensores do sigilo das fontes se justificam com o dever de informar a sociedade, como se esse dever fosse a tábua da lei, o mandamento supremo acima de qualquer outro mandamento ou lei. No fundo, aquela velha máxima de que o fim justifica os meios, pedra angular em que se baseou a Inquisição medieval e todos os movimentos totalitários que desgraçaram a humanidade.


CONY, Carlos Heitor. Folha de São Paulo. 06/12/2005.

 

 

Entre os segmentos a seguir, assinale aquele que apresenta intertextualidade com o discurso religioso.

  1. “Os defensores do sigilo das fontes se justificam com o dever de informar a sociedade, como se esse dever fosse a tábua da lei, o mandamento supremo acima de qualquer outro mandamento ou lei.”
  2. “No fundo, aquela velha máxima de que o fim justifica os meios, pedra angular em que se baseou a Inquisição medieval e todos os movimentos totalitários que desgraçaram a humanidade.”
  3. “O sigilo das fontes beneficia as fontes, e não o jornalista, que geralmente é manipulado na medida em que aceita e divulga as informações obtidas com a garantia do próprio sigilo.”
  4. “São fontes realmente murmurantes, que transmitem os murmúrios, as especulações e as jogadas inconfessáveis dos interessados, que são os próprios informantes.”
  5. “Digo ‘inconfessáveis’ por um motivo óbvio: se fossem confessáveis, as fontes não pediriam sigilo, confessariam o que sabem ou supõem, assumindo a responsabilidade pela informação.”
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Gabarito

A

Comentário do professor

Esta frase apresenta intertextualidade porque incorpora expressões do discurso religioso para qualificar um dever jornalístico.

O autor usa termos como "tábua da lei" e "mandamento supremo" ao falar do dever de informar a sociedade, recolocando um enunciado secular no campo vocabular e simbólico da religião.

Essas expressões remetem claramente às Tábuas da Lei e aos mandamentos bíblicos, recorrentes no repertório religioso, e assim funcionam como eco ou citação indireta desse outro texto/discurso.

O efeito retórico é comparar, com ironia crítica, a pretensão absolutista de quem defende o sigilo das fontes ao caráter inquestionável atribuído às normas religiosas, o que confirma a presença da intertextualidade.

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