Questão FC304167
Na África do Sul, o arcebispo anglicano Desmond Tutu, uma das mais destacadas figuras da luta contra o apartheid, lidera uma campanha internacional de denúncia das leis antigays. E
Tipologia e Gênero Textual
FGV · 2014
Texto I
Francisco, os gays e a doutrina
“Se alguém que é gay procura Deus e tem boa vontade, quem sou eu para julgá‐lo?” A declaração do Papa Francisco, pronunciada durante uma entrevista à imprensa no final de sua visita ao Brasil, ecoou como um trovão mundo afora. Nela, existe mais forma que substância – mas a forma conta.
A homossexualidade é um tabu no Vaticano. Bento XVI, o antecessor de Francisco, escreveu apenas oito anos atrás que a homossexualidade é uma “desordem objetiva” e “uma forte inclinação dirigida para um pecado mortal intrínseco”. Francisco não contestou Bento XVI – e talvez concorde com ele. Contudo, usou o termo coloquial “gay”, algo antes impensável, e colocou o acento em outro lugar: “Quem sou eu para julgá‐lo?”
Francisco deslocou o problema. Sob a lógica de sua declaração revolucionária, o problema não é de substância (ser gay), mas de circunstância (viver à luz de Deus). Ele não foi além disso. Entretanto, nas dioceses distantes, a frase provocará debates, e muitos a interpretarão como uma licença implícita para ordenar padres que são gays, mas celibatários. “Não fale, não pergunte”: essa foi a orientação de Bill Clinton que começou a abrir as portas das forças armadas americanas aos gays. Francisco disse quase o mesmo.
“Quem sou eu para julgá‐lo?” – isso, dito pelo Papa, não é pouca coisa. O impacto da declaração não está confinado às fronteiras da Igreja. Em dezenas de países, especialmente nos da África, existem leis contra gays. A Rússia de Vladimir Putin acaba de criar uma lei desse tipo. Estados e governos querem a prerrogativa de “julgar” – e de punir! – a orientação sexual das pessoas. Quando a Igreja ensaia rever sua anacrônica posição sobre os homossexuais, algo de relevante está acontecendo.
Na África do Sul, o arcebispo anglicano Desmond Tutu, uma das mais destacadas figuras da luta contra o apartheid, lidera uma campanha internacional de denúncia das leis antigays. Ele declarou que repudiaria “um Deus homofóbico”. Francisco ficou bem longe disso, mas suas palavras anunciam o fim de um tempo de escuridão. A pergunta que emerge delas é bem simples: se o Papa não tem o direito de “julgar” os gays, quem são as autoridades políticas para fazê‐lo?
(Axé Silva, O Mundo, setembro 2013)
No início do texto, o autor fala de dois aspectos da declaração do Papa Francisco: conteúdo e forma.
Assinale a opção que indica o trecho do texto que aborda a forma da declaração.
- “Francisco ficou bem longe disso, mas suas palavras anunciam o fim de um tempo de escuridão”.
- “Quando a Igreja ensaia rever sua anacrônica posição sobre os homossexuais, algo de relevante está acontecendo”.
- “‘Quem sou eu para julgá‐lo?’ – isso, dito pelo Papa, não é pouca coisa”.
- “Francisco deslocou o problema. Sob a lógica de sua declaração revolucionária, o problema não é de substância (ser gay), mas de circunstância (viver à luz de Deus)”.
- “Contudo, usou o termo coloquial ‘gay’, algo antes impensável, e colocou o acento em outro lugar: “‘Quem sou eu para julgá‐lo?’”
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Gabarito
Errado
Comentário do professor
Forma: o trecho indicado aborda exatamente a dimensão formal da declaração papal, isto é, a maneira como a mensagem foi construída e transmitida.
Ao notar que Francisco “usou o termo coloquial ‘gay’”, o autor chama atenção para uma escolha lexical e de registro — um recurso estilístico que altera a recepção do enunciado.
Ao acrescentar que ele “colocou o acento em outro lugar” e citar a pergunta “Quem sou eu para julgá‑lo?”, o texto destaca uma mudança de ênfase e focalização: aspectos de entonação, pontuação e organização do discurso que redefinem o impacto da mensagem.
Portanto, a passagem analisa a forma (vocabulary, tom e ênfase) da declaração, não seu conteúdo doutrinário.
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